Nossa Amazônia: mito ou realidade

Valdir Florencio Veiga

DOI: http://dx.doi.org/10.5935/2446-4775.20160017

Resumo


“O mito é o nada que é tudo...”, nas palavras de Fernando Pessoa, muito do que se sabe e do que se acredita também sobre a Amazônia.

Terra das lendárias índias guerreiras Icamiabas, que teriam massacrado os espanhóis da expedição de Francisco de Orellana de 1541, na foz do rio Inhamundá, que hoje divide os estados do Amazonas e Pará. Com o passar do tempo, o relato do cronista da expedição, frei Gaspar de Carvajal, que teria perdido um dos olhos no episódio, só fez crescer o imaginário europeu sobre a região. A lenda foi fortalecida pelos relatos de Cristóbal d´Acuña, cronista da expedição de Pedro Teixeira, no século XVII, e La Condamine e Alexander Von Humboldt, já no século XVIII, que a denominou hiléia (Hylaea).

La Condamine, jovem acadêmico, apoiado por Voltaire para sua viagem à Amazônia, apoiou-se nos relatos de outros grandes cronistas, como Samuel Fritz (que desenhou o primeiro mapa da região) e d´Acuña, para realizar seu relato Iluminista, associando observações astronômicas à suavidade com que fluem os grandes rios, a majestosa grandiosidade da floresta com palácios dourados (o El Dorado), em serras enevoadas, repletas das míticas guerreiras, fez os primeiros relatos de alguns de seus produtos mais importantes.

Se foi o gênio de Teixeira quem conquistou a Amazônia para o Brasil, mais de 3 milhões de km2 a oeste do Tratado de Tordesilhas trazidos para o império português, La Condamine foi responsável por levar para a Europa uma espécie de quina muito mais rica em quinina, de demonstrar o valor econômico da borracha e de divulgar o potencial do curare que obteve dos índios ticuna, explorando, como nunca antes, o potencial biotecnológico da região.

Eram piratas ou corsários a serviço de suas coroas? Não há mais tempo para acusar outros pela nossa inabilidade de explorar a sua biodiversidade, de maneira sustentável, para desenvolver a região. Os modelos de desenvolvimento vigentes, implementados no século XX, de exploração descontrolada ou do estabelecimento de regiões industriais que não realizaram investimento local em pesquisa, mostraram-se insustentáveis. É urgente ocupar cientificamente essa região.

Em seus 7 milhões de km2, a Amazônia tem nada menos que 70% de sua área coberta por florestas, metade de todas as florestas tropicais do planeta. Dividida com outras oito nações, a Amazônia Brasileira corresponde a 5 dos 8,5 milhões de km2 da área do país (58%). Ameaçada pelo fogo, pelo desmatamento, pelo avanço do cultivo da soja e dos rebanhos, por todo um conjunto de atividades humanas, de poluição ao desenvolvimento de grandes cidades, a região que já foi um grande cerrado na última glaciação, há 21 mil anos, sofre agora mais uma ameaça, a de perder grande parte de sua biodiversidade em um novo evento de savanização, agora provocado pelo aquecimento global. É imperioso estudar cientificamente essa região de forma efetiva neste século.

Nas diretrizes do CNPq, Amazônia é prioridade. Nos números, somando os sete estados da região norte, são financiados 628 projetos (4,9% do total nacional, 44% do que é financiado no Rio Grande do Sul) e 3.615 bolsas (4,6% do total nacional, ou 55% das bolsas do CNPq para a Universidade de São Paulo).

O número temático da Revista Fitos sobre a Amazônia apresenta pesquisas realizadas por alguns dos heroicos grupos de cientistas que sobrevivem, neste momento ímpar, nas últimas décadas. Apesar do sucateamento das Fundações de Amparo à Pesquisa, dos custos abusivos de manutenção de equipamentos, do descaso e miopia imediatista dos governos estaduais e das dificuldades das universidades em fornecer apoio aos seus próprios professores, estes grupos de cientistas resistem.

Com dois artigos em Etnobotânica e sete em Química, este número temático traz consigo a esperança de que esse período seja passageiro. Esperança essa de que: as grandes empresas de cosméticos que deixaram a região, diminuindo investimentos, retornem com mais fôlego; a nova gestão do Centro de Biotecnologia da Amazônia pela parceria com o INMETRO seja efetiva em sua qualificação como Organização Social, após ter sido criada a associação; a insegurança do atraso de bolsas e da falta de editais possa terminar antes que os laboratórios de pesquisa fechem por falta absoluta de recursos, causando prejuízos de milhões de reais e o retrocesso de muitas décadas, que estava apenas começando a diminuir.


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