Open-access Prevalência e fatores preditores ao conhecimento e a utilização de plantas medicinais e fitoterápicos na atenção básica

Prevalence and predictors of knowledge and use of medicinal plants and herbal medicines in primary care

Resumo

O objetivo desse estudo foi identificar as prevalências e os fatores preditores ao conhecimento e à utilização da fitoterapia dentre uma população de um município do Sertão pernambucano. Um estudo transversal analítico de abordagem quantitativa englobou usuários de uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Um questionário foi aplicado e buscou-se identificar variáveis socioeconômicas, demográficas e de saúde, que foram analisadas no software SPSS 20.0 e submetidos regressão logística (p=0.05). O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa (Número do parecer: 5.612.157). Dentre 271 indivíduos, 58,3% (n = 158) relataram conhecer a fitoterapia, ao passo que 24,0% (n = 65) a utilizavam. Ter 26 anos ou mais de idade; ter trabalho ativo; e ter ensino superior completo foram fatores preditores ao conhecimento sobre a prática (p<0.05). Ter 26 anos de idade ou mais; ser autodeclarado negro ou amarelo; ter renda superior a 1 salário-mínimo; e ter problemas crônicos de saúde foram fatores preditores à utilização da fitoterapia (p<0.05). Concluiu-se que a fitoterapia é conhecida dentre a população, porém pouco utilizada. Alguns fatores socioeconômicos, demográficos e de saúde parecem ser preditores à familiaridade dos usuários da AB com a prática.

Palavras-chave Terapias Complementares; Fitoterapia; Fatores socioeconômicos; Atenção Primária à Saúde

Abstract

The objective of this study was to identify the prevalence and predictors of knowledge and use of herbal medicine among a population in a municipality in Pernambuco's Sertão region. Methods: An analytical cross-sectional study with a quantitative approach included users of a Basic Health Unit (UBS). A questionnaire was applied to identify socioeconomic, demographic and health variables, which were analyzed using SPSS 20.0 software and submitted to logistic regression (p=0.05). The study was approved by the Research Ethics Committee (Opinion number: 5.612.157). Among 271 individuals, 58.3% (n = 158) reported knowing about phytotherapy, while 24.0% (n = 65) used it. Being 26 years old or older; having an active job; and having completed higher education were predictors of knowledge about the practice (p <0.05). Being 26 years old or older; being self-declared black or yellow; having an income of more than 1 minimum wage; and having chronic health problems were predictors of using herbal medicine (p<0.05). Phytotherapy is well known among the population, but little used. Some socioeconomic, demographic and health factors seem to be predictors of the familiarity of PHC users with the practice.

Keywords Complementary Therapies; Phytotherapy; Socioeconomic Factors; Primary Health Care

Introdução

A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), criada em 2006, incentivou o uso de fitoterápicos no Brasil de várias maneiras[1]. Através da promoção da produção, pesquisa, fiscalização e regulação desses produtos, estimulou a utilização racional de plantas medicinais e fitoterápicos na atenção básica à saúde[2]. A política também buscou valorizar o conhecimento tradicional associado ao uso de plantas medicinais, promovendo a inclusão social e o desenvolvimento sustentável[3]. Assim, ela contribuiu para a expansão do acesso a alternativas terapêuticas naturais e para a diversificação das opções de tratamento disponíveis para a população[1].

Sim, apesar dos avanços proporcionados pela PNPMF, existem desafios em sua implementação[2]. Alguns dos desafios incluem a falta de infraestrutura e de profissionais de saúde capacitados para lidar com plantas medicinais e fitoterápicos, a necessidade de estímulo à pesquisa científica nessas áreas, a regulamentação e fiscalização da produção e comercialização desses produtos, bem como a garantia da qualidade e segurança dos fitoterápicos disponíveis no mercado[4]. Além disso, ainda se têm a pouca utilização da prática através do Sistema Único de Saúde (SUS)[5].

É necessário a avaliação do conhecimento da população para identificar se os serviços de saúde do SUS estão sendo referência para disseminação da prática[5]. Investigar a utilização de plantas medicinais e fitoterápicos em usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) em um município do Sertão de Pernambuco é de extrema importância por vários motivos: a rica tradição no uso de plantas medicinais nessa região, sendo essencial compreender e valorizar esse conhecimento tradicional; a fitoterapia como opção acessível para a população que utiliza o SUS; e a avaliação da efetividade e segurança dessas práticas, fornecendo dados importantes para aprimorar as políticas de saúde nesse sentido[6-8].

Portanto, investigar a utilização de plantas medicinais e fitoterápicos no contexto do SUS em um município do Sertão de Pernambuco é fundamental para promover a saúde, respeitar a cultura local e garantir o acesso a opções terapêuticas seguras e eficazes. Dessa forma, o presente estudo buscou identificar as prevalências e os fatores preditores ao conhecimento e à utilização da fitoterapia dentre uma população de um município do Sertão pernambucano.

Metodologia

Tipo, local e população de estudo

Trata-se de um estudo transversal analítico e de abordagem quantitativa desenvolvido em uma região da cidade de Serra Talhada, Pernambuco, Brasil. O recorte selecionado foi a área adscrita à UBS COHAB II, localizada no bairro Tancredo Neves e próxima à Instituição promotora do estudo, o Centro Universitário FIS (UniFIS). Esta região engloba 2.471 domicílios e 3.824 habitantes segundo informações do sistema de informação da própria UBS.

Plano amostral

O cálculo amostral levado em consideração foi de 227 indivíduos, obtido a partir da prevalência de conhecimento sobre fitoterapia de 80,6% encontrado no Estado de Pernambuco[9]. Através do software OpenEpi, com base em uma população de 3.824 indivíduos; utilizando um intervalo de confiança de 95%; e com acréscimo de 20% para minimizar perdas, o número pré-estabelecido da amostra final foi de 273 pessoas.

A amostragem foi aleatória sistemática. Os domicílios a serem visitados foram sorteados a partir da sequência em cada uma das ruas, obedecendo a ordem de escolha de um domicílio a cada nove. Foi selecionado um indivíduo por domicílio para que assim se pudesse respeitar os números amostrais pré-estabelecidos de indivíduos e domicílios.

Elegibilidade

Estavam elegíveis à participação no estudo os indivíduos com cadastro na UBS COHAB II; e moradores na região há pelo menos 1 ano. Foram excluídos aqueles indivíduos com limitações cognitivas impeditivas de comunicação verbal; menores de 18 anos de idade; e domicílios sem nenhum morador no momento de vista da equipe de pesquisa.

Coleta de dados

A coleta de dados foi conduzida entre os meses de setembro de 2022 e maio de 2023, por três pesquisadores e através de entrevistas com roteiro estabelecido pelo instrumento utilizado no estudo. A população foi abordada presencialmente em seus respectivos domicílios, mas sempre com sua privacidade e conforto preservados.

Instrumento

O instrumento de coleta de dados utilizado teve como base um questionário advindo de um estudo prévio que também teve por objetivo principal identificar a prevalência de uso da fitoterapia de forma mais abrangente no Estado de Pernambuco[9].

Variáveis

Duas variáveis dependentes foram utilizadas no estudo: “conhecimento sobre fitoterapia” e “utilização da fitoterapia”. Essas variáveis foram autorreferidas pelo participante a partir do seguinte questionamento feito pelos pesquisadores: “O senhor(a) sabe o que é a fitoterapia e, se sim, faz uso dessa prática?”. Para ambas os indivíduos autor referiram suas respostas que posteriormente foram dicotomizadas em “sim” e “não”.

Análise dos dados

Os dados foram tabulados no software estatístico SPSS 20.0 e submetidos a análise descritiva. Posteriormente, a análise bivariada foi realizada pelo teste de qui-quadrado de Pearson. Diante dessa análise, os resultados com p≤0.20 foram submetidos à análise multivariada com ajuste por “gênero” e “idade”, para a identificação do odds ratio (OR) e seu intervalo de confiança (IC) de 95%. Ambos os testes adotaram p = 0.05.

Considerações Éticas

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UniFIS, de acordo com a Resolução Nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (Número do parecer: 5.612.157/2022; CAAE: 60257722.6.0000.8267). Todos os indivíduos participaram apenas mediante assinatura prévia do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Resultados e Discussão

A amostra final do estudo foi composta por 271 indivíduos, que representa duas (1,09%) perdas. Dentre a amostra, 58,3% (n = 158) relataram conhecer a fitoterapia, ao passo que 24,0% (n = 65) utilizavam as plantas medicinais e os fitoterápicos como prática de saúde. Um conhecimento significativamente maior sobre a fitoterapia foi encontrado dentre aqueles indivíduos com idade maior, autodeclarados brancos, com trabalho ativo, com ensino superior e sem problemas crônicos de saúde (p<0.05). A utilização de plantas medicinais e dos fitoterápicos foi significativamente mais comum dentre aqueles indivíduos mais velhos, com renda maior que 1 salário-mínimo, sem planos de saúde, com problemas crônicos de saúde e que não receberam orientações de profissionais de saúde sobre a prática (p<0.05). Esses achados aparecem na TABELA 1.

TABELA 1
: Análise bivariada pelo teste de qui-quadrado de Pearson entre o conhecimento e utilização da fitoterapia e as variáveis independentes do estudo (n = 271). Brasil, 2024.

A regressão logística binária permitiu conhecer as chances de o indivíduo conhecer e/ou utilizar a fitoterapia. Assim, ter 26 anos ou mais de idade (OR ajustada = 5,2; IC 95% = 3,0 – 9,0; p<0.001), ter trabalho ativo (OR ajustada = 4,3; IC 95% = 2,4 – 7,8; p<0.001); e ter ensino superior completo (OR ajustada = 2,1; IC 95% = 1,1 – 4,0; p=0.021) foram fatores preditores ao conhecimento da prática. Ser doente crônico esteve associado a menores chances de conhecer a fitoterapia (OR ajustada = 0,4; IC 95% = 0,2 – 0,9; p = 0.038). Em conjunto, ter 26 anos de idade ou mais (OR ajustada = 2,8; IC 95% = 1,5 – 5,2; p = 0.001), ser autodeclarado negro ou amarelo (OR ajustada = 1,0; IC 95% = 1,0 – 1,0; p < 0.001); ter renda superior a 1 salário-mínimo (OR ajustada = 9,7; IC 95% = 4,1 – 23,1; p < 0.001); e ter problemas crônicos de saúde (OR ajustada = 3,7; IC 95% = 1,7 – 7,9; p = 0.001) foram fatores preditores à utilização da fitoterapia. Ter recebido orientações de profissionais de saúde esteve associado a menores chances de utilizar a fitoterapia (OR ajustada = 0,1; IC 95% = 0,0 – 0,6; p = 0.013). Estes achados estão presentes na TABELA 2.

TABELA 2
: Análise multivariada pelo modelo de regressão logística binária entre o conhecimento e utilização da fitoterapia e as variáveis independentes do estudo (n = 271). Brasil, 2024.

O uso de plantas medicinais e fitoterápicos no Brasil tem crescido nos últimos anos, impulsionado pelo interesse em práticas de medicina alternativa e integrativa. A população brasileira tem buscado opções naturais para o cuidado em saúde e tratamento de certas condições. Diante desse contexto, o presente estudo buscou identificar as prevalências e os fatores preditores ao conhecimento e à utilização da fitoterapia dentre uma população de um município do Sertão pernambucano. Assim, foi possível verificar uma taxa de familiaridade com a prática bem superior à utilização.

A fitoterapia e as plantas medicinais são amplamente difundidas dentro da cultura brasileira. Em geral, as prevalências de conhecimento e da utilização da prática no País são de 80,9% e 51,2%, respectivamente[10]. Estudos sobre populações nordestinas apontam que a porcentagem de sujeitos que possuem conhecimento sobre a temática seja superior a 80%; em municípios do sertão da Paraíba e de Pernambuco encontrou-se porcentagens menores[9,11].

A taxa de uso ainda é superior à encontrada em estudo de abrangência nacional no Brasil através da Pesquisa Nacional de Saúde em 2019[5]. Esta grande variabilidade entre as prevalências poderia ser explicada devido aos contextos diferentes das pesquisas; esta analisou um grupo restrito e adscrito a uma região de saúde de apenas um município.

Indivíduos com idade mais avançada eram mais adeptos à fitoterapia, fato semelhante ao contexto brasileiro geral[5]. A prática de uso das plantas medicinais é uma cultura antiga que advém das gerações mais antigas, inclusive influenciadas pelos povos tradicionais brasileiros como indígenas e quilombolas[12,13]. Contudo, esse achado pode significar que este conhecimento esteja se perdendo no decorrer das gerações.

A aplicação terapêutica de ervas e plantas no contexto brasileiro é resultado de um processo histórico de sua construção, reproduzindo saberes ancestrais de povos originários e imigrantes[14]. Em conjunto da desigualdade socioeconômica, terapias naturais são escolhidas com maior frequência por grupos étnicos não brancos[15]. Neste estudo, houve utilização proporcionalmente igual entre indivíduos autorreferidos negros e brancos. Tal semelhança pode ser explicada pelo histórico de vulnerabilidade socioeconômica na região que afeta os indivíduos de forma igualitária[16].

O fato das pessoas com maior renda apresentarem um maior uso e àquelas com ensino superior com maior conhecimento sobre a prática, denota um perfil de acesso às plantas medicinais e fitoterápicos em posse de indivíduos com melhores condições socioeconômicas. Esses achados contrastam com a literatura científica prévia[5]. Tal diferença pode ser justificada pela inclusão da análise dos fitoterápicos neste estudo, o que agrega maiores chances de indivíduos com mais recursos disponíveis referirem utilização da prática.

No Brasil, as plantas medicinais e fitoterápicos ainda não são prescritos com frequência à pacientes com doenças crônicas[17]. Neste estudo, pessoas com tais problemas tiveram chances maiores de usar e conhecer a prática, semelhante ao cenário já encontrado no país[5,10]. Contudo, há o alerta para os riscos de automedicação e interação medicamentosa nesses indivíduos[18].

As chances de utilizar a fitoterapia foram 90% menores entre aqueles que receberam orientações profissionais, o que evidencia que o serviço de saúde ainda não é uma referência sobre a prática. No Brasil, as orientações e prescrições de plantas medicinais e fitoterápicos por profissionais de saúde ainda são pouco acessíveis à população[17]. A maioria dos entrevistados conhecem a fitoterapia através de profissionais de saúde, mas esse conhecimento não é suficiente para que eles utilizem estes fármacos. Resultado da insegurança dos profissionais na prescrição dessa categoria de medicamento, alguns conselhos profissionais permitem a prescrição de fitoterápicos apenas para inscritos que possuam cursos de pós-graduação na área, uma vez que, as graduações não abordam a temática em suas grades curriculares[19]. Se faz necessário a capacitação de equipes de saúde, uma vez que são responsáveis por a maior parte do conhecimento adquirido dos entrevistados sobre o tema. Existem ações de educação permanente em saúde exitosas, ampliando a implementação de serviços que divulguem a fitoterapia como hortas medicinais, aplicação de produtos fitoterápicos e dos riscos e reações adversas provocados por esses fármacos[20,21].

Algumas limitações são reconhecidas neste estudo, incluindo o fato de não haver a pesquisa sobre as espécies de plantas e produtos mais utilizados nesta população. Também, não foi possível verificar os tipos de utilização e formas de transmissão de conhecimento desses produtos. Contudo, pôde-se trazer uma análise mais abrangente sobre os aspectos estudados aqui e que irão contribuir para a avaliação de políticas públicas de saúde voltadas à fitoterapia no município e região.

Conclusão

A população estudada demonstrou-se adepta à utilização de plantas medicinais e fitoterápicos para o cuidado em saúde. Contudo, ser mais velho, socioeconomicamente mais favorecido e ter problemas de saúde parecem ser fatores preditores à familiaridade dos usuários da AB com a prática. Ademais, é importante desenvolver estratégias de educação em saúde para conscientizar a população sobre o uso correto e seguro dessas terapias alternativas.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Centro Universitário FIS (UniFIS) pelo incentivo e apoio ao desenvolvimento do estudo, e à Secretária Municipal de Saúde de Serra Talhada.

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  • Financiamento:
    Não houve.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    Nov 2025

Histórico

  • Recebido
    10 Jul 2024
  • Aceito
    05 Nov 2025