Open-access Canábis como conexão entre sustentabilidade e saúde: explorando seu potencial no Modelo One Health

Cannabis as a connection between sustainability and health: exploring its potential in the One Health Model

Resumo

One Health (ou Saúde Única) é uma abordagem integrada que reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental, promovendo a colaboração interdisciplinar para enfrentar problemas de saúde pública de forma mais eficaz. Alternativas sustentáveis, como o potencial medicinal da Cannabis sativa em diversas terapias, podem ser correlacionadas mais amplamente, especialmente com o seu uso em doenças crônicas. Os percalços encontrados no país para que o óleo de canábis alcance as pessoas que mais necessitam dele, se por um lado enfrenta desafios significativos, por outro lado une as pessoas em pequenas produções, cooperativas, associações, com conhecimentos da botânica, agronomia, química, direito, administração, entre várias outras disciplinas, visando a produção e o bem comum de uma maneira holística e descentralizada. O caminho da canábis no país como um fitoterápico de grande valor para uso humano e veterinário possui o potencial de se consolidar como um elemento chave na integração entre saúde pública, sustentabilidade ambiental e avanços científicos, alinhando-se aos princípios de Saúde Única.

Palavras-chave Cannabis medicinal; Impacto socioambiental; Uso racional; Saúde única

Abstract

One Health is an integrated approach that recognizes the interconnectedness between human, animal, and environmental health, promoting interdisciplinary collaboration to address public health issues more effectively. Sustainable alternatives, such as the medicinal potential of Cannabis sativa in various therapies, can be more broadly correlated, especially with its use in chronic diseases. The obstacles faced in the country for cannabis oil to reach those who need it the most, while facing significant challenges, also unite people in small productions, cooperatives, associations, with knowledge in botany, agronomy, chemistry, law, administration, among many other disciplines, aiming for production and the common good in a holistic and decentralized way. The path of cannabis in the country as a highly valuable phytotherapeutic for human and veterinary use has the potential to become a key element in the integration between public health, environmental sustainability, and scientific advances, aligning with the principles of One Health.

Keywords Medicinal Cannabis; Socio-Environmental Impact; Rational Use; One Health

1. One Health

A conexão, o elo fundamental, o ecossistema que interliga seres humanos, animais e o ambiente em que todos vivemos é essencial para a sobrevivência de todos no planeta. Sua compreensão possibilita a descoberta de alternativas sustentáveis, de modelos que tornem essa conexão mais integrada1,2. O rápido movimento de indivíduos e produtos pela globalização, a demanda crescente por fontes de proteína, a destruição de habitats, o aumento do contato entre humanos e animais, a mudança climática, a crescente resistência antimicrobiana, entre outros desafios, têm influenciado direta ou indiretamente a saúde de todos3,4. Fatos marcantes no âmbito mundial, como os surtos de síndrome respiratória aguda grave (SARS), em 2002; gripe suína, em 2009; síndrome respiratória do oriente médio (MERS), em 2012; Ebola, em 2014; Zika, em 2015; Dengue, em 2016; e a pandemia pela infecção respiratória causada pelo coronavírus SARS-COV-2 (COVID-19), em 2019; têm alertado as autoridades de saúde pública sobre a necessidade de uma abordagem diferenciada no enfrentamento5. Em todos estes casos, observa-se a necessidade urgente do aumento da colaboração entre a medicina humana e veterinária, e sua conexão ao meio ambiente6.

Em 2004, um simpósio organizado pela Wildlife Conservation Society na Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, contou com especialistas provenientes de todo o mundo, tendo sido aprovada uma lista de 12 recomendações conhecidas como The Manhattan Principles on One World. Esse documento preconiza uma abordagem mais holística para prevenir o aparecimento de doenças epidêmicas/epizootias, e para conservar a integridade dos ecossistemas em benefício dos humanos, dos animais, e da biodiversidade7. Em 2008, a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) lançaram uma iniciativa chamada “Um Mundo, Uma Saúde”, na qual o termo One Health (Saúde Única) foi o conceito sugerido para demonstrar a inseparabilidade da saúde humana, animal e ambiental8.

Existem várias definições de One Health. Para este artigo trabalhou-se com aquela que foi apresentada pelo One Health High-Level Expert Panel (OHHLEP), um painel que reúne especialistas de diversos países, afiliados a organizações governamentais, não-governamentais e acadêmicas, e que tem uma função consultiva junto da FAO, da OMS, da OIE, e do United Nations Environment Programme (UNEP)9. Segundo o OHHLEP, a One Health pode ser definida como uma abordagem integradora e unificadora, que tem como objetivo o equilíbrio sustentável e a otimização da saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas. A One Health reconhece que a saúde dos humanos, dos animais domésticos e selvagens e do ambiente, no seu sentido mais amplo (incluindo os ecossistemas), está intimamente ligada e é interdependente. Essa abordagem mobiliza múltiplos setores e vários níveis da sociedade para trabalharem em conjunto na promoção do bem-estar e para enfrentar as ameaças à saúde e aos ecossistemas, enquanto aborda a necessidade coletiva de alimentação, água, energia e ar saudáveis, implementando medidas sobre as alterações climáticas e contribuindo para o desenvolvimento sustentável10.

Dentro dessa perspectiva, o desenvolvimento simultâneo de medicamentos para humanos e animais, a partir do cultivo de plantas medicinais, pode se tornar uma prática comum nos testes clínicos11. Essa estratégia tem o potencial de acelerar o desenvolvimento de novos fármacos, reduzir custos, minimizar impactos ambientais e contribuir para o bem-estar animal12.

Pode-se dizer que na saúde humana, os compostos bioativos da canábis, como os canabinoides (THC, CBD), têm demonstrado eficácia terapêutica em diversas condições clínicas, incluindo epilepsia, dores crônicas, distúrbios neurológicos, doenças autoimunes e transtornos psiquiátricos. O uso medicinal regulamentado pode reduzir o uso de fármacos sintéticos com efeitos adversos, contribuindo para práticas médicas mais seguras e integrativas.

Segundo a Agência Brasil, estima-se que o número de pacientes contemplados no Brasil com o uso de canábis medicinal tenha atingido a marca de 672 mil pessoas — um recorde que levou o setor a movimentar cerca de R$ 853 milhões em investimentos13. Os dados fazem parte do II Anuário da canábis medicinal no Brasil, que considera informações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). De acordo com o órgão, 47% dos pacientes dependem da importação do produto mediante prescrição médica. O restante recorre a farmácias (31%) ou a associações (22%), sendo estes os meios mais usufruídos pela população de baixa condição financeira por não conseguir arcar com os elevados custos14. Segundo a consultoria Kaya Mind, esses pacientes estão distribuídos por mais de 3.671 municípios — ou seja, 66% das cidades brasileiras têm ao menos um usuário de canábis medicinal. As estimativas indicam que o mercado da canábis pode atingir a marca de R$ 1 bilhão no país, com capacidade de geração de vagas de trabalho na área em 320 mil empregados15,16.

Na saúde animal, pesquisas emergentes apontam aplicações da Cannabis sativa na medicina veterinária no tratamento de dor, ansiedade e inflamações, especialmente em animais de companhia. A regulamentação e o controle da produção permitem o desenvolvimento seguro de formulações fitoterápicas também para uso veterinário, ampliando o cuidado multiespécie.

Na saúde ambiental, o cultivo sustentável da canábis pode contribuir para a regeneração de solos, sequestro de carbono e uso de áreas degradadas, uma vez que a planta apresenta crescimento rápido, baixo uso de agrotóxicos e propriedades fitorremediadoras. Além disso, a substituição de matérias-primas poluentes por bioprodutos derivados da canábis (como bioplásticos, fibras e papel) fortalece uma economia circular e de baixo carbono.

Dessa forma, a canábis representa um elo estratégico para o desenho de políticas públicas intersetoriais voltadas à saúde coletiva, à sustentabilidade e à equidade social. Sua inserção responsável e baseada em evidências científicas no contexto do modelo One Health pode fortalecer a integração entre setores como saúde, meio ambiente, agricultura, educação e justiça, promovendo avanços reais em bem-estar social e ambiental.

2. Canábis e a sociedade

O uso amplo e bem descrito da Cannabis sativa (ou simplesmente cannabis, da família Cannabaceae) em terapias para doenças crônicas ainda enfrenta discordâncias e preocupações na sociedade, em especial por aspectos como zoonóticos e epidemiológicos da saúde pública, assim como na medicina clínica, ocupacional e ambiental.

A Cannabis sativa é utilizada há milênios, com registros de seu cultivo desde o período neolítico, cerca de 5000 anos atrás, na Ásia Central. Inicialmente, a planta era empregada na alimentação, na produção de tecidos e como medicamento17. Registros históricos indicam que a canábis foi uma das primeiras plantas medicinais utilizadas pelo ser humano18. Com o avanço da escrita, seu uso foi documentado em diversas culturas, como no Egito, na China e na Índia. Além de seu papel religioso, a canábis era amplamente indicada no tratamento de diversas condições, incluindo dor, transtornos odontológicos, convulsões, ansiedade, inflamações, espasmos musculares e problemas respiratórios19,20. Na África, a planta era utilizada no tratamento de picadas de cobra, analgesia no parto, sintomas da malária, doenças gastrointestinais e como ansiolítico. A canábis chegou às Américas do Sul e Central através dos africanos, tendo sido empregada no alívio dos sintomas decorrentes das agressões físicas e emocionais sofridas durante o período da escravidão21. Nessas regiões, destacava-se seu uso no tratamento de dores articulares, cólicas menstruais e distúrbios intestinais. Além de suas propriedades medicinais, com o avanço das tecnologias a canábis também se tornou uma alternativa sustentável na produção de papel e tecidos22. Atualmente, seu uso terapêutico é reconhecido em dezenas de países, e pesquisas continuam a aprofundar o entendimento sobre o sistema endocanabinoide e sua relevância para a saúde humana. No entanto, apesar dos avanços científicos, o acesso à canábis medicinal ainda é limitado em muitos países devido a barreiras regulatórias e ao estigma social23.

Sua integração com as sociedades humanas sempre foi imensa e revela uma interessante conexão entre a canábis e diversas culturas pelo mundo, como no Oriente Médio, China e Índia, sendo utilizada não somente por suas conhecidas propriedades medicinais. Diferentes espécies foram empregadas como matéria-prima em variadas aplicações, principalmente por suas fibras, sendo utilizadas na produção de tecidos, cordas e papel. A canábis também foi utilizada como representação de uma planta sagrada e adotada em práticas culturais e religiosas, sendo oferecida aos deuses com o objetivo de alcançar visões e curas. Porém, essa grande valorização e utilização da planta, com profunda conexão com a sociedade, foi fortemente estigmatizada e criminalizada24,25.

A proibição do uso dos produtos provenientes de Cannabis sativa no mundo todo seguiu uma diretiva do governo americano, a partir da década de 1970, no combate irrestrito às drogas. Essa restrição foi intensificada com a inclusão do 9-tetraidrocanabinol (THC), a substância psicoativa responsável pelo uso recreativo, e suas variantes na lista da Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971, realizada pela Organização das Nações Unidas, com representantes de mais 70 países26. Essa abordagem influenciou de forma direta legislações ao redor do mundo, levando muitos países a adotarem medidas igualmente restritivas.

Atualmente, uma nova visão de seu uso está sendo amadurecida e seu uso vem sendo legalizado. A regulamentação dos plantios industriais de canábis varia entre os países onde é permitido o cultivo, dependendo do produto a que se destina: uso medicinal, recreativo ou industrial. Em alguns países, os produtores precisam obter licenças específicas, emitidas por autoridades governamentais ou agências reguladoras, cumprir requisitos rigorosos quanto ao controle de qualidade e segurança, apresentar rastreamento da semente ao produto, auditorias regulares e relatórios.

No Brasil, o primeiro movimento para regulamentação de produtos à base de C. sativa foi estabelecido pela Portaria SVS/MS n° 344/1998. Essa portaria inclui a canábis e seus derivados na lista de substâncias prescritas27. A regulamentação mais atual para o uso medicinal é fortalecida com as resoluções RDC n° 327/2019 e RDC n° 660/2022, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que permitem a produção e o acesso via importação dos medicamentos de terapia canabinoide para pessoa física ou jurídica28,29. Segundo as normas da ANVISA, os produtos à base de canábis devem ser comercializados respeitando o limite máximo 0,2% de THC, com exceção dos produtos indicados para os cuidados paliativos de pacientes sem alternativas terapêuticas e em vinte de três situações clínicas irreversíveis ou terminais, que poderão conter teor de THC acima de 0,2%30. Para o registro de medicamentos novos no Brasil, a resolução prevê a realização de pesquisas clínicas que sejam capazes de comprovar a eficácia desses produtos, além de outros requisitos para seu enquadramento como medicamento, o que não é o caso produtos de canábis. O canabidiol (CBD) só pode ser utilizado a partir de receita médica do tipo B e, conforme determina a legislação para o tema, somente no caso de esgotamento de outros tratamentos30.

Essas resoluções são consideradas marcos, pois preveem a fabricação e a importação de produtos de canabis para fins medicinais com requisitos para a comercialização, prescrição, dispensação, monitoramento e fiscalização desses produtos. Devido à ilegalidade e a ausência de regulamentação, não há normas que disponham sobre os métodos de cultivo ou que contemplem a perspectiva ambiental da produção no país. A importação da planta ou partes da Cannabis sativa não é permitida, o que fortalece a necessidade de regulamentar o cultivo no país. Dados recentes afirmam que é possível a importação de sementes de canábis, para fins medicinais, por pessoas jurídicas, excluindo as associações, após decisão do Superior Tribunal de Justiça31. Embora a decisão judicial não contemple todo o potencial produtivo e medicinal da planta, tal fato representa um avanço no debate social acerca de políticas públicas e regulamentações que abarquem uma gama maior de beneficiários da canabis.

É fundamental que as pesquisas continuem a explorar os efeitos a longo prazo do uso de canábis, para garantir a segurança e eficácia dos tratamentos. A insegurança com a falta de informações consistentes e regulamentação sobre as indicações, efeitos adversos e qualidade do produto disponível, exigem que novas pesquisas sejam implementadas32. As evidências da eficiência medicinal dos extratos de Cannabis sativa, em especial do óleo de canábis rico em CBD, têm mudado o panorama legal. Pelas normas atuais, passaram a ser permitidos os produtos à base de canábis nas formas farmacêuticas tradicionais, como cápsulas, óleos e extratos, tanto nos cuidados paliativos para pacientes com doenças graves ou em casos terminais. Seu uso para doenças crônicas e, em especial, para crianças, tem sido cada vez mais buscado.

A descoberta dos caminhos para a obtenção de autorizações judiciais para a importação de medicamentos à base de canabis tem movido pessoas de diferentes classes sociais à criação de associações que viabilizem o fornecimento para seus entes queridos33. Essa união que tem derrubado barreiras sociais, também tem possibilitado que grandes órgãos públicos de referência na pesquisa científica nas áreas de produção agrícola e saúde, como Embrapa e Fiocruz, estejam alinhados a pequenas cooperativas de produtores para obter autorizações de produção em solo nacional e, assim, prover a população dos óleos de canábis34.

Os desafios encontrados para que o óleo de canábis alcance as pessoas que mais necessitam dele têm também unido não só classes sociais, mas cientistas e cooperativas, produtores, usuários e diferentes profissionais, de advogados a agrônomos, de químicos a administradores35. Dentro da perspectiva da One Health são os talentos humanos, e não mais os recursos humanos, a atuarem em conjunto. Os usos da água e do solo deixam de ser vistos como recursos ambientais para serem aspectos essenciais de sustentabilidade de qualquer empreendimento36. A unificação dos conceitos permite observá-los de forma mais ampla, sem precificação nem hierarquização, mas ressaltando suas essencialidades para o desenvolvimento de todos para o bem comum37.

As formas de produção indoor ou outdoor da canábis, por exemplo, apresentam características muito distintas (de insolação, distanciamento e uso da água, por exemplo) que potencializam a produção de determinadas substâncias mais desejadas, como o CBD, em detrimento de outras substâncias, e THC, apesar de sua presença em pequenas quantidades ser essencial para os efeitos sinérgicos que permitem a bioatividade potencializada do CBD38,39. As diversas ações dos canabinoides na saúde humana se expandem também no uso veterinário, em especial para pequenos animais de estimação, mas também em equinos40.

As relações de consumo da canábis desde tempos imemoriais sejam para uso têxtil, medicinal, religioso ou recreativo, como seu uso para diferentes fins e classes sociais; têm emprego amplo na medicina humana e veterinária41. Analogamente, assim como a viabilidade de acesso envolve diversos profissionais, a biossíntese dos bioativos desejados nas quantidades que permitem o efeito ótimo são influenciadas e têm relação intrínseca com diversos fatores ambientais. Mesmo as discussões acaloradas sobre a liberação de uso, comercialização e produção de canábis têm movido diferentes partes da sociedade a avaliar conceitos e limites em que pesem a saúde infantil e em doenças crônicas, mas também o uso narcótico e a violência urbana42. Todos esses aspectos tornam a canábis um modelo de grande interesse para a One Health.

3. Saúde Humana e a Cannabis sativa

Os canabinoides encontrados em plantas do gênero Cannabis interagem com o sistema endocanabinoide (SEC), que regula diversas funções fisiológicas e está presente em humanos e outros animais43. Esse sistema afeta e é composto por neurotransmissores que desempenham papéis centrais na regulação de processos fisiológicos e patológicos, incluindo controle da dor, resposta imunológica, apetite, termorregulação, metabolismo energético e condições neuropsiquiátricas44.

O CBD é o principal constituinte não psicoativo das variedades de Cannabis sativa, com aplicações terapêuticas que incluem tratamentos associados a doenças inflamatórias e neurodegenerativas, epilepsia, dor crônica, ansiedade, esclerose múltipla e câncer45. O uso de canábis para fins medicinais, como o CBD, tem se mostrado promissor, principalmente, para aliviar sintomas como dor, náuseas e vômitos em pacientes submetidos à quimioterapia, além de auxiliar no estímulo do apetite46. O CBD tem sido utilizado no tratamento de formas raras de epilepsia, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut, mostrando eficácia na redução das crises. Estudos também indicam que o CBD pode ajudar no controle da espasticidade muscular em pacientes com esclerose múltipla47. Em relação à saúde mental, pesquisas sugerem que o CBD possui propriedades ansiolíticas e antidepressivas, o que o torna potencialmente benéfico no tratamento de transtornos de ansiedade e depressão48. Há ainda evidências de que o CBD exerce efeitos anti-inflamatórios, sendo investigado como tratamento para doenças inflamatórias intestinais. Produtos tópicos contendo CBD estão sendo explorados para o tratamento de condições como psoríase e dermatite atópica, devido às suas propriedades anti-inflamatórias49.

O Sistema Único de Saúde (SUS) é a maior política pública de saúde da América Latina e um dos maiores sistemas públicos de saúde universal do mundo. Criado pela Constituição Federal de 1988, o SUS representa uma conquista histórica da sociedade brasileira ao garantir acesso universal, integral e gratuito à saúde para toda a população, sendo sustentado majoritariamente por recursos públicos50. O SUS se estrutura com base em três princípios doutrinários: universalidade, integralidade e equidade. A universalidade do direito à saúde é garantida a todos, independentemente de classe social, raça ou local de residência. A integralidade consiste no cuidado em saúde deve considerar todas as necessidades do indivíduo, desde a prevenção até o tratamento e reabilitação. Por fim, a equidade prioriza os mais vulneráveis, reconhecendo que diferentes grupos populacionais exigem diferentes abordagens para alcançar justiça social51.

O SUS atende mais de 190 milhões de brasileiros, cobrindo desde vacinação em massa, vigilância sanitária e epidemiológica, campanhas de prevenção, até transplantes, tratamentos oncológicos e acesso a medicamentos de alto custo. Sua capilaridade permite alcançar comunidades remotas, populações em situação de rua, quilombolas, indígenas e outros grupos vulneráveis, o que o torna essencial na redução de desigualdades históricas50.

O SUS está inserido em um modelo ampliado de saúde, que reconhece os determinantes sociais, ambientais, econômicos e culturais no adoecimento da população. Esse modelo se alinha fortemente aos princípios da Saúde Única (One Health), pois permite a articulação com outras políticas públicas — como meio ambiente, segurança alimentar, agricultura familiar, ciência e tecnologia.

A incorporação de fitoterápicos e práticas integrativas, o incentivo às farmácias vivas e o apoio à produção local de insumos são exemplos de estratégias do SUS com potencial para integrar conhecimentos tradicionais, ciência e sustentabilidade51,52.

A interface entre a regulamentação da Cannabis sativa e o Sistema Único de Saúde (SUS) revela oportunidades significativas para promover equidade em saúde e justiça social. O SUS, como política pública universal e integradora, pode atuar como mediador no acesso seguro, gratuito e orientado ao uso medicinal da canábis, especialmente para pacientes de baixa renda que enfrentam barreiras econômicas e geográficas ao tratamento convencional. Em comunidades vulneráveis, marcadas por histórico de exclusão, racismo estrutural, pobreza ou ruralidade, a disponibilização de derivados canabinoides pelo SUS representa um avanço concreto na democratização das tecnologias em saúde51,52. Além disso, políticas públicas que incentivem a produção comunitária ou cooperativa da planta, com fins medicinais ou industriais (como cânhamo), podem gerar inclusão produtiva, renda e autonomia local53,54. Neste contexto, integrar a canábis às ações do SUS contribui para uma abordagem mais justa e intersetorial da saúde, em consonância com os princípios do modelo One Health e com os determinantes sociais da saúde.

4. Saúde Animal e a Cannabis sativa

O uso do CBD em animais de companhia tem ganhado popularidade, principalmente no tratamento de dores crônicas, ansiedade e distúrbios neurológicos. Embora os estudos ainda estejam em andamento, muitos tutores e veterinários relatam benefícios significativos em cães e gatos55.

O CBD tem sido recomendado para diversas condições, incluindo:

  • Dores crônicas e inflamações: Auxilia no alívio da dor associada a doenças degenerativas articulares, como artrite e osteoporose em cães idosos. Além disso, seu potencial anti-inflamatório pode ser útil no tratamento de inflamações musculares e recuperação pós-operatória[56].

  • Ansiedade e comportamentos compulsivos: Pode ajudar animais que sofrem de ansiedade de separação, medo de fogos de artifício e comportamentos compulsivos, como lamber excessivamente as patas[40].

  • Distúrbios neurológicos: Tem sido utilizado no manejo da epilepsia e outros distúrbios neurológicos[56].

Apesar dos benefícios, é essencial considerar a segurança e os cuidados na administração do CBD57. A dosagem deve ser ajustada de acordo com o peso e a condição do animal, sempre com orientação de um veterinário capacitado58. Além disso, o produto deve ser exclusivamente de uso veterinário e livre de THC, substância potencialmente tóxica para cães e gatos59.

A medicina veterinária ainda enfrenta desafios no uso da canábis medicinal, principalmente devido à escassez de estudos baseados em evidências sólidas60. Além disso, alguns médicos veterinários demonstram resistência ao tratamento com canabinoides, o que pode estar relacionado à falta de treinamento adequado na área61. Paralelamente, a crescente demanda de tutores por alternativas terapêuticas à base de canábis impulsionou a oferta de produtos específicos para animais62. Nos Estados Unidos, estima-se que o mercado de CBD para pets represente 7% de uma projeção de US$ 24 bilhões em vendas anuais63.

Diante desse cenário, torna-se essencial que a comercialização desses produtos ocorra sob a supervisão de profissionais qualificados, garantindo segurança e eficácia no tratamento. O uso de canábis em animais também está sendo estudado, especialmente o CBD, que tem mostrado potencial para tratar condições como dor, inflamações e transtornos comportamentais. Contudo, assim como no uso em humanos, os cuidados com os animais exigem regulamentação para garantir que as substâncias administradas sejam seguras e eficazes. A canábis pode ser uma ferramenta valiosa para melhorar a qualidade de vida de animais com condições crônicas, mas sua administração deve ser supervisionada por veterinários especializados64.

5. Saúde Ambiental e a Cannabis sativa

A Cannabis sativa é uma cultura de elevada demanda hídrica, e seu cultivo, quando realizado de forma ilícita, pode causar impactos significativos em corpos d'água e microbacias inteiras. O consumo de água no cultivo é considerável, variando entre 9,45 e 10,6 litros por planta/dia65. No entanto, essa demanda pode ser reduzida em sistemas de cultivo protegido, onde a menor exposição à luminosidade diminui a transpiração da planta, reduzindo a necessidade de irrigação em até 80%66. Apesar do alto consumo de água, a Cannabis sativa apresenta grande capacidade de adaptação e contribui para a melhoria da fertilidade do solo, atuando como um eficiente sequestrador de carbono, demanda menos pesticidas e herbicidas em comparação a outras plantações convencionais, reduzindo impactos negativos ao solo e aos recursos hídricos67, tornando seu cultivo ambientalmente relevante68. O plantio em sistema aberto pode reduzir as emissões de carbono de 6 a 10 vezes, diminuindo o impacto ambiental em até 90%. A adoção de práticas que favorecem a ambientação da planta não apenas reduz a demanda hídrica, mas também diminui o consumo de energia e a necessidade de irrigação69.

O cultivo de Cannabis sativa apresenta alta demanda de energia elétrica, consumindo aproximadamente 6.074 kWh por quilograma de flores produzidas. Esse alto consumo energético deve-se, principalmente, à necessidade de desumidificação e iluminação artificial70. Brosseau e colaboradores71 analisaram o impacto ambiental do cultivo, avaliando o potencial de aquecimento global associado à produção de flores de Cannabis sativa. O estudo registrou emissões de até 110,7 kg de CO₂ equivalente por quilograma de flores secas, valor que pode variar de acordo com o manejo nutricional adotado. Essas demandas evidenciam a necessidade de estratégias mais sustentáveis para minimizar o impacto ambiental do cultivo protegido de canabis.

Mitigar os impactos dos cultivos inadequados é essencial para evitar o desmatamento e a fragmentação de florestas72. Práticas agrícolas irresponsáveis podem levar à exposição do solo, tanto em cultivos a céu aberto quanto em estufas, aumentando o risco de erosão73. Esse processo contribui para a deposição de sedimentos finos em corpos hídricos, resultando na degradação ambiental74. Diante deste cenário, é fundamental que a regulamentação do cultivo de Cannabis sativa seja pautada em uma abordagem de produção com garantia da qualidade da matéria-prima, fortalecendo a resiliência dos sistemas agrícolas frente às mudanças climáticas e abordando de forma integrada as questões sociais relacionadas à planta, abrangendo aspectos de saúde pública e sustentabilidade. Não há registro do manejo aplicado aos cultivos, mesmo quando autorizados para associações, farmacêuticas ou consumidores finais. É reconhecido que as condições de cultivo podem esconder práticas nocivas ao meio ambiente e à saúde humana, causando impactos ambientais negativos75. Compreender como os cultivos em pequena, média e larga escala poderão impactar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais no Brasil, podem evidenciar o potencial da Cannabis sativa como uma nova oportunidade para o agronegócio. O controle do uso da água em plantações de alta demanda hídrica, aliado a uma fiscalização eficiente que promova um modelo de produção responsável e ecologicamente equilibrado, são medidas importantes para atenuar a má impressão sobre a planta.

A flexibilização dos mecanismos de supervisão pode favorecer a condução de ensaios científicos e viabilizar o acesso ao material vegetal por parte da comunidade acadêmica, sendo uma estratégia relevante para o fortalecimento da base de evidências necessárias à formulação de políticas agrícolas mais eficazes e sustentáveis. O cultivo da canábis exerce influência no meio ambiente em diversas escalas, contudo podem ser mitigados, se manejados corretamente76. A obrigatoriedade de testes rigorosos para detectar contaminantes e a rotulagem dos produtos derivados da canabis incentivam investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico para a indústria77. Por exemplo, nos Estados Unidos, a indústria da canábis apresentou crescimento considerável após a legalização do cultivo e a regularização da produção da planta e seus derivados, especialmente para uso medicinal. Esse avanço foi impulsionado pelas pesquisas com o CBD, permitindo o cultivo com práticas agrícolas sustentáveis devidamente regularizadas78. Além disso, os plantios de canábis destinados à produção de fibras, conhecidos como cânhamo industrial, têm demonstrado uma capacidade superior de fixação de biomassa em comparação aos plantios florestais22.

A canabis industrial (ou cânhamo) fixa uma quantidade de biomassa significativamente maior do que a madeira produzida em florestas79. Sua alta concentração de celulose a torna uma excelente matéria-prima para a produção de papel, com uma produtividade quatro vezes superior à dos povoamentos florestais. O desenvolvimento tecnológico forneceu a base para o uso industrial do cânhamo na indústria têxtil. A evolução das leis e regulamentos foram fundamentais para a criação de incentivos financeiros e tecnológicos, de maneira semelhante ao que ocorre com outras culturas agrícolas80.

As produções provenientes da indústria do cânhamo podem estar alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Embora haja uma série de impactos positivos e negativos, é fundamental destacar que os aspectos sociais merecem uma compreensão mais aprofundada. Além disso, é importante expandir o conhecimento sobre as melhores práticas agrícolas, com o intuito de melhorar a produtividade e promover a sustentabilidade81. Na Europa, o cultivo de cânhamo para uso industrial segue as normas agrícolas gerais, porém com restrições quanto ao teor de THC e aos métodos de plantio. A Política Agrícola Comum (PAC) estabelece diretrizes que incentivam práticas de baixo impacto ambiental, promovendo um cultivo mais sustentável. Subsídios agrícolas são concedidos a produtores que adotam métodos ecologicamente responsáveis, como rotação de culturas e redução do uso de pesticidas. A exigência com baixo teor de THC (< 0,3%) contribui para um maior controle da produção, reduzindo os impactos ambientais e garantindo maior segurança na cadeia produtiva82.

O cultivo ilegal da canábis no Brasil acontece em plantios do chamado “Polígono da Maconha”, que contribuem com cerca de 40% da produção, em municípios do estado de Pernambuco (Salgueiro, Mirandiba, Serra Talhada e Imbimirim, na região do Sertão e Belém do São Francisco, Cabrobó, Carnaubeira da Penha, Floresta, Lagoa Grande, Orocó e Santa Maria da Boa Vista, na região do São Francisco)83,84. Também há produção para o mercado de consumo ilegal com origem no Mato Grosso do Sul e no Paraguai83. Apesar do cultivo ilegal no Brasil, grande parte da maconha consumida no país é importada ilegalmente do Paraguai, principal fornecedor para o mercado brasileiro. Estima-se que, cerca de 80% da maconha consumida no Brasil venha do Paraguai, onde há grandes plantações ilegais85. É importante destacar que o fato de sua cadeia produtiva e da comercialização estarem intrinsecamente ligados ao narcotráfico, faz incidir um pesado estigma social sobre a planta, o que dificulta sobremaneira o debate acerca de sua legalização. Apesar de todas as evidências científicas, já existentes, sobre os benefícios do uso da canabis medicinal em humanos e animais, ainda não foi possível descriminalizar e a regulamentar o cultivo e uso desta planta86. A legalização da produção nacional poderia trazer grandes benefícios nessas regiões, em especial nas regiões mais carentes da região nordeste do país, assim como inibir a entrada de produtos ilegais, que potencializam outros comércios, como de armas e outros ilícitos.

Com o cultivo sustentável de Cannabis sativa sendo regulamentado, práticas agrícolas que minimizem o uso de pesticidas, fertilizantes e recursos hídricos irão se associar para a preservação dos ecossistemas. O uso de cânhamo, como alternativa a materiais como plásticos ou papel derivados de árvores, pode contribuir para práticas mais ecológicas, promovendo a redução da pegada de carbono e o uso de materiais renováveis. Além disso, o cultivo de canabis, se manejado de forma responsável, pode beneficiar o solo e melhorar a biodiversidade.

6. Políticas regulatórias e a Cannabis sativa

As políticas regulatórias em torno da Cannabis sativa variam amplamente entre os países, influenciando diretamente tanto a sustentabilidade do cultivo quanto o acesso e uso medicinal e industrial da planta. Em países com legislações mais permissivas, como Canadá, Uruguai e alguns estados dos EUA, o desenvolvimento de cadeias produtivas reguladas tem promovido práticas agrícolas mais sustentáveis, controle de qualidade e investimento em pesquisa e inovação. Nesses contextos, o cultivo da canábis pode ser integrado a políticas de redução de impactos ambientais, com incentivo ao uso de técnicas orgânicas, rastreabilidade e uso racional de recursos naturais87.

Por outro lado, em regiões onde a proibição ainda predomina ou as regulamentações são incipientes, o cultivo frequentemente ocorre em contextos informais ou ilegais, dificultando qualquer controle ambiental, sanitário ou trabalhista. Isso pode resultar em práticas prejudiciais ao meio ambiente, como o desmatamento, o uso indiscriminado de pesticidas e o trabalho precário88.

A harmonização internacional de políticas públicas, aliando regulação sanitária, proteção ambiental e justiça social, é, portanto, fundamental para consolidar uma cadeia produtiva da canábis que seja segura, acessível e ecologicamente responsável. Incluir esse panorama no debate amplia a compreensão do papel estratégico da cannabis na promoção de uma saúde única e sustentável.

7. Integração de One Health e a Cannabis sativa

A integração da canabis ao modelo One Health se baseia na interconexão entre seus benefícios ecológicos, terapêuticos e socioeconômicos. Integrar os conceitos ambientais, cuidados com humanos e animais no uso de canábis pode ser feito de forma a demonstrar como cada um desses aspectos se relaciona e se complementa dentro do contexto do cultivo, produção e consumo responsável dessa planta68. Uma abordagem equilibrada permite que possamos ter produção responsável, cujo cultivo sustentável de canabis, minimiza impactos ambientais, com uso consciente de recursos naturais e respeito à biodiversidade88. A preocupação no meio ambiente reflete nos cuidados e nas normas rigorosas para garantir a segurança tanto dos consumidores humanos quanto dos animais. Essa vertente inclui: controle de qualidade, testes de segurança e eficácia, além de regulamentações claras sobre os limites de THC para diferentes finalidades (medicinais ou industriais)89.

Incentivar a pesquisa contínua para compreender os benefícios e os riscos da canabis em humanos e animais, é uma maneira alternativa que mitiga o extrativismo desenfreado. A inovação em produtos à base de canábis deve considerar tanto as necessidades de saúde quanto a sustentabilidade ambiental. É importante ressaltar que essa abordagem integrada visa garantir seu uso responsável e racional, promovendo campanhas educativas que orientem os consumidores sobre como utilizar produtos derivados da planta de forma segura e eficaz. Ao mesmo tempo, busca-se assegurar práticas agrícolas sustentáveis e respeitosas ao meio ambiente, gerando benefícios tanto para os seres humanos e animais quanto para o ecossistema90.

A integração da canabis no modelo One Health representa uma oportunidade para avanços significativos na saúde humana e animal, além de promover soluções sustentáveis para desafios ambientais. O futuro da canábis depende de abordagens regulatórias equilibradas, inovações científicas e maior conscientização sobre seu potencial. Ao reconhecer a interconexão entre meio ambiente, saúde e economia, será possível explorar ao máximo os benefícios dessa planta sob diferentes aspectos.

Referências

  • Fontes de Financiamento:
    Não houve financiamento.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Set 2025

Histórico

  • Recebido
    22 Abr 2025
  • Aceito
    15 Ago 2025