Open-access Validação farmacológica do uso da Achyrocline satureioides (Lam.) DC descrito nos tratados entre os séculos XVII e XX

Pharmacological validation of the use of Achyrocline satureioides (Lam.) DC described in treatises between the 17th and 20th centuries

Resumo

A Achyrocline satureioides é uma espécie nativa do Brasil, conhecida como Macela. Suas flores são utilizadas como antiasmáticas, antiespasmódicas e antiepilépticas. Esta monografia é fruto da pesquisa para validação dos usos das flores como antiespasmódica, apresentado por Rodolpho Albino na primeira farmacopeia do Brasil, do século XX. A pesquisa foi realizada por meio de busca de artigos nas bases de dados PUBMED, EMBASE e BVS, através de máscaras específicas. Estudos pré-clínicos mostraram que o extrato hidroalcoólico possuiu flavonoides quercetina, luteolina, isoquercitrina e 3-O-metilquercetina e os compostos fenólicos como ácido caféico, ácido ferúlico e isômeros de ácido dicafeoilquínico que são responsáveis pela atividade antiespasmódica, envolvendo o relaxamento da musculatura lisa via modulação do influxo de cálcio, além de possível atuação colinérgica. Não foram observados efeitos toxicológicos graves em estudos in vitro, mas o uso em doses elevadas pode interferir em parâmetros reprodutivos e endócrinos, o que justifica cautela em populações como gestantes, lactantes, dentre outros. Ressalta-se que esta espécie se encontra no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, sendo validada a mesma indicação de uso. Indica-se aqui a realização de mais estudos clínicos randomizados, embora seu uso tradicional tenha sido validado.

Palavras-chave Achyrocline satureioides; Macela; Antiespasmódica; Farmacopeia brasileira; Rodolpho Albino

Abstract

Achyrocline satureioides is a native species of Brazil, known as Macela. Its flowers are used as anti-asthmatic, antispasmodic and antiepileptic agents. This monograph is the result of research to validate the use of flowers as antispasmodics, presented by Rodolpho Albino through the first Brazilian pharmacopoeia, from the 20th century. The research was carried out by searching for articles in PUBMED, EMBASE and BVS databases, using specific masks. Preclinical studies have shown that the hydroalcoholic extract contains flavonoids quercetin, luteolin, isoquercitrin and 3-O-methylquercetin and phenolic compounds such as caffeic acid, ferulic acid and isomers of dicaffeoylquinic acid that are responsible for the antispasmodic activity, involving the relaxation of smooth muscle via modulation of calcium influx, in addition to possible cholinergic action. No serious toxicological effects were observed in in vitro studies but use in high doses may interfere with reproductive and endocrine parameters, which justifies caution in populations such as pregnant and lactating women, among others. It is worth noting that this species is included in the Phytotherapeutic Formulary of the Brazilian Pharmacopoeia, and the same indication for use has been validated. Further randomized clinical studies are recommended here, although its traditional use has been validated.

Keywords Achyrocline satureioides; Macela; Antispasmodic; Brazilian pharmacopeia; Rodolpho Albino

Aspectos metodológicos

A seguinte monografia observou a pesquisa nas bases de dados PUBMED/MEDLINE, EMBASE e SCOPUS utilizando palavras-chaves específicas relativas à atividade farmacológica e toxicidade da espécie pesquisada em trabalhos publicados nos últimos 30 anos. A espécie selecionada Achyrocline satureioides atendeu aos critérios de seleção e validação propostos na metodologia do projeto.

Nome Científico: Achyrocline satureioides (Lam.) DC.

Nomes Populares: Marcela, Macela, Macela-do-campo, Marcela, entre outros (variações regionais).

Imagem da Planta:


Autores: Mayara Rezende e Maria Behrens

1. Identificação da Espécie

Nome Botânico: Achyrocline satureioides (Lam.) DC.

Sinonímia:

  • Achyrocline satureioides var. satureioides

  • Gnaphalium candicans Kunth

  • Gnaphalium rufum Willd. ex Less.

  • Gnaphalium satureioides Lam.

  • Gnaphalium saturejifolium Poepp. ex DC.

  • Gnaphalium saturejoides var. candicans (Kunth) Kuntze

Família: Asteraceae

2. Origem e Distribuição Geográfica

  • Região ou País de Origem: Regiões subtropicais e temperadas da América do Sul

  • Característica em Relação à América Latina: espécie nativa

  • Biomas de Ocorrência: Regiões campestres de clima temperado; no Brasil, encontrada nos biomas Pampa, Cerrado e Mata Atlântica.

3. Histórico e Uso Tradicional (Etnofarmacológico)

Achyrocline satureioides, popularmente conhecida como Marcela ou Macela, é amplamente utilizada na medicina tradicional de países da América do Sul, incluindo Brasil, Uruguai e Argentina. Entre as principais indicações descritas em relatos etnomedicinais e tratados históricos, destacam-se propriedades antiasmáticas, antiespasmódicas e antiepilépticas.

No contexto brasileiro, a “Primeira Farmacopeia” de Rodolpho Albino faz menção às flores de Achyrocline satureioides para fins antiasmáticos, antiespasmódicos e antiepilépticos[1]. Entretanto, estudos científicos recentes corroboram, de forma mais consistente, sobretudo o efeito antiespasmódico, enquanto as demais ações (antiasmática e antiepiléptica) permanecem pouco validadas ou insuficientemente investigadas[2,3].

4. Indicações Terapêuticas Tradicionais

  • Antiasmática (flores) – Uso tradicional citado, mas não validado por estudos científicos robustos.

  • Antiespasmódica (flores) – Uso tradicional corroborado por alguns estudos farmacológicos.

  • Antiepiléptica (flores) – Mencionada em contextos históricos, com evidências ainda incipientes.

Autores/Tratado Histórico Citado:

  • Rodolpho Albino (Primeira Farmacopeia)

Parte da Planta Utilizada: Principalmente as flores.

Forma de Preparo e Administração Tradicional:

Geralmente, utiliza-se em forma de infusões ou decoctos das flores (às vezes misturadas com outras partes da planta). Porém, não há descrição detalhada no documento histórico quanto a proporções e tempos de fervura ou maceração.

5. Composição Química e Principais Ativos

Estudos fitoquímicos[2] apontam uma rica variedade de compostos, especialmente polifenóis, entre os quais se destacam:

I. Flavonoides:

  • Quercetina, Luteolina, Isoquercitrina, 3-O-metilquercetina

  • Associados à atividade antioxidante, anti-inflamatória, neuroprotetora e antiespasmódica.

II. Ácidos Fenólicos:

  • Ácido caféico, ácido ferúlico e isômeros de ácido dicafeoilquínico (também relacionados a propriedades anti-inflamatórias e protetoras de tecidos).

III. Outros Constituintes:

  • Pequenas quantidades de óleos essenciais e cumarinas podem estar presentes, mas os flavonoides são os fitoquímicos majoritários nos extratos mais estudados.

6. Farmacologia e Mecanismos de Ação

  • Ação Antiespasmódica:
    • Alguns estudos compararam o extrato hidroalcoólico de Achyrocline satureioides com fármacos clássicos (papaverina, atropina), mostrando efeito antiespasmódico, embora inferior aos padrões farmacológicos. O mecanismo pode envolver o relaxamento da musculatura lisa via modulação do influxo de cálcio, além de possível atuação colinérgica [2,3].

  • Propriedades Anti-inflamatórias e Antioxidantes:
    • Os flavonoides (quercetina, luteolina, isoquercitrina etc.) apresentam significativa capacidade de varredura de radicais livres, explicando parte dos efeitos protetores e possíveis aplicações em inflamações crônicas.

  • Neuroproteção e Efeitos no SNC:
    • Ensaios in vitro sugerem que flavonoides isolados de A. satureioides podem proteger células neuronais contra estresse oxidativo induzido por H2O2, demonstrando potencial neuroprotetor.

    • O uso antiepiléptico, descrito historicamente, ainda carece de validação robusta; entretanto, o perfil antioxidante e a modulação de neurotransmissores podem justificar estudos adicionais no contexto de doenças neurológicas.

  • Atividade Antiasmática (ainda inconclusa):
    • Apesar de o uso popular incluir indicações para asma, faltam pesquisas específicas que comprovem ou descrevam detalhadamente mecanismos farmacológicos relacionados ao bronco-relaxamento ou modulação inflamatória no trato respiratório.

7. Evidências Pré-Clínicas

I. Efeito Antiespasmódico:

Modelos experimentais em tecidos isolados de intestino demonstram relaxamento de musculatura lisa após aplicação de extratos ou frações contendo flavonoides.

II. Baixa Toxicidade Aguda (Oral):

Estudos em ratos e camundongos indicam que o extrato aquoso de A. satureioides apresenta DL50 acima de 5 g/kg (via oral), sugerindo segurança em doses usualmente empregadas na medicina popular.

III. Toxicidade Reprodutiva e Endócrina (Em Altas Doses):

Em doses elevadas (≥ 500 mg/kg por períodos prolongados), observou-se redução de parâmetros de espermatogênese em ratos e possível elevação de TSH em fêmeas. Indica-se cautela e necessidade de mais estudos toxicológicos de longo prazo.

8. Evidências Clínicas

Há poucos estudos clínicos controlados que avaliem a eficácia ou a segurança de Achyrocline satureioides em humanos. A maior parte das evidências disponíveis se concentra em pesquisas pré-clínicas (in vitro e in vivo)[4,5]. Embora o uso tradicional seja amplo, a validação clínica formal ainda é restrita:

  • Antiespasmódico: Há convergência entre o uso popular e alguns estudos farmacológicos iniciais, mas faltam ensaios clínicos.

  • Antiasmático e Antiepiléptico: Não foram localizados estudos clínicos consistentes que corroborem tais aplicações; por ora, consideram-se não validadas cientificamente.

9. Toxicidade e Segurança

  • Toxicidade Aguda (Oral) Baixa:
    • Doses únicas elevadas (≥5 g/kg) parecem seguras em modelos animais, sem alterações significativas em peso, parâmetros sanguíneos ou histológicos[6].

  • Potenciais Efeitos Reprodutivos em Doses Altas:
    • Estudos com extrato etanólico administrado cronicamente em ratos sugerem redução na produção espermática e aumento de TSH em fêmeas, o que merece cautela e monitoramento.

  • Citotoxidade e Genotoxicidade em Altas Concentrações:
    • Extratos concentrados podem exibir efeitos genotóxicos in vivo e citotoxicidade em cultura de células. Ajuste de dose e forma de preparo são essenciais para minimizar esses riscos[5].

10. Informações Complementares

A planta é frequentemente utilizada na medicina popular como infusão aromática para distúrbios gastrointestinais leves, como cólicas, má digestão e para “acalmar os nervos”. Alguns relatos assinalam propriedade sedativa suave, podendo reforçar o uso tradicional para condições relacionadas ao SNC.

Na culinária regional, sobretudo em zonas rurais do sul do Brasil, a “Macela” é por vezes incluída em chás mistos, com a crença popular de favorecer efeitos relaxantes e digestivos. Já a forma mais concentrada (extrato hidroalcoólico) é pouco consumida popularmente, embora apareça em alguns preparados comercializados como fitoterápicos na América do Sul.

Considerações Finais e Perspectivas

A monografia de Achyrocline satureioides (Lam.) DC. ressalta sua importância na medicina tradicional sul-americana, particularmente para efeitos antiespasmódicos — os quais encontram algum respaldo em pesquisas pré-clínicas. As alegações de uso antiasmático e antiepiléptico, embora citadas historicamente, carecem de comprovação científica mais robusta. É importante ressaltar que esta planta se encontra presente no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira[7], sendo o uso sugerido como antiespasmódico, o que corrobora com os resultados obtidos nesta monografia.

Do ponto de vista químico, a planta é rica em flavonoides (quercetina, luteolina, isoquercitrina, 3-O-metilquercetina, entre outros), que conferem potenciais ações anti-inflamatórias, antioxidantes e neuroprotetoras. Estudos toxicológicos indicam relativa segurança em doses tradicionais. Porém, doses mais altas podem interferir em parâmetros reprodutivos e endócrinos, o que justifica cautela em populações especiais (gestantes, lactantes, indivíduos com distúrbios hormonais).

Futuros estudos clínicos randomizados, além de ensaios toxicológicos crônicos, são necessários para confirmar a eficácia e estabelecer protocolos de segurança mais detalhados, visando validar amplamente o uso de A. satureioides como fitoterápico.

Referências

  • Fontes de Financiamento:
    Não há.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Mai 2026
  • Data do Fascículo
    Mai 2026

Histórico

  • Recebido
    29 Abr 2025
  • Aceito
    09 Jul 2025