Resumo
A Anchietea pyrifolia é uma espécie nativa brasileira, conhecida como Anchietea. Suas raízes e cascas possuem indicação para afecções de pele como eczemas, furunculose, eritemas e feridas, bem como acne. Esta monografia é fruto da pesquisa para validação dos usos das flores como antiespasmódica, apresentado por Rodolpho Albino na primeira edição da Farmacopeia do Brasil, do século XX. A pesquisa foi realizada por meio da busca de artigos nas bases de dados PUBMED, EMBASE e BVS, utilizando máscaras específicas. Estudos fitoquímicos e pré-clínicos demostraram que os flavonoides-O-glicosilados, ácido clorogênico e seus isômeros são responsáveis pelas atividades anti-inflamatórias e antioxidantes. A monografia de Anchietea pyrifolia (Mart.) G. Don evidencia uma planta com uso tradicional para condições cutâneas, acne, eczemas e feridas, além de purgativa. De acordo com os dados de toxicidade, seu uso parece seguro, não sendo observados sinais de toxicidade nas doses testadas. Entretanto, o uso como purgativo pode gerar irritação gastrointestinal em doses elevadas, recomendando-se cautela.
Palavras-chave: Anchietea pyrifolia; Anchietea; Afecções da pele; Acervo Casa Granado
Abstract
Anchietea pyrifolia is a native Brazilian species, known as Anchietea. Its roots and bark are indicated for skin conditions such as eczema, furunculosis, erythema and wounds, as well as acne. This monograph is the result of research to validate the use of flowers as an antispasmodic, presented by Rodolpho Albino through the first Brazilian Pharmacopoeia, from the 20th century. The research was carried out by searching for articles in PUBMED, EMBASE and BVS databases, using specific masks. Preclinical studies have shown that flavonoids-O-glycosylated, chlorogenic acid and its isomers are responsible for the anti-inflammatory and antioxidant activities. The monograph of Anchietea pyrifolia (Mart.) G. Don highlights a plant with traditional use for skin conditions, acne, eczema and wounds, as well as a purgative. According to the toxicity data, its use appears safe, with no signs of toxicity being observed at the doses tested. However, use as a purgative can cause gastrointestinal irritation in high doses, so caution is recommended.
Keywords: Anchietea pyrifolia; Anchietea; skin conditions; Granado House Collection
Aspectos metodológicos
A seguinte monografia observou a pesquisa nas bases de dados PUBMED/MEDLINE, EMBASE e SCOPUS utilizando palavras-chaves específicas relativas à atividade farmacológica e toxicidade da espécie pesquisada em trabalhos publicados nos últimos 30 anos. A espécie selecionada Anchieta pyrifolia atendeu aos critérios de seleção e validação propostos na metodologia do projeto.
Nome Científico: Anchietea pyrifolia (Mart.) G. Don.
Nomes Populares: Não há registros consolidados de nomes populares amplamente difundidos. Em algumas referências regionais, pode ser chamada apenas de “anchietea” ou “viola-trepadeira”, “Cipó suma”, “piraguaia” (variações pontuais)[1].
Imagem da Planta:
Autores: Rachel Oliveira Castilho; Adriana Nunes Wolffenbuttel
1. Identificação da Espécie
Nome Botânico: Anchietea pyrifolia (Mart.) G. Don
Sinonímia:
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Anchietea parvifolia Hallier f.
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Anchietea pyrifolia A.St.-Hil.
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Anchietea roquefeilliana Spreng.
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Anchietea salutaris A.St.-Hil.
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Anchietea salutaris var. hilariana Eichler
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Anchietea salutaris var. martiana Eichler
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Anchietea salutaris var. pubescens Eichler
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Noisettia pyrifolia Mart.
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Noisettia roquefeuilliana A.St.-Hil.
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Viola summa Vell.
Família: Violaceae
2. Origem e Distribuição Geográfica
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Região ou País de Origem: América do Sul.
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Característica em Relação à América Latina: Espécie nativa encontrada principalmente no Brasil.
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Biomas de Ocorrência: Florestas tropicais úmidas e diversos ecossistemas brasileiros, incluindo Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal.
3. Histórico e Uso Tradicional (Etnofarmacológico)
No acervo de registros históricos (Acervo da Casa Granado) e na tradição popular, partes de Anchietea pyrifolia, especialmente raiz e casca são relatadas como purgativas e indicadas para o tratamento de afecções de pele como eczemas, furunculose, eritemas e feridas, bem como acne. Embora sejam menções pontuais, alguns relatos associam seu uso à limpeza e desintoxicação do organismo e melhora de condições cutâneas[1-3].
Atualmente, há citação de formulações que inclui Anchietea salutaris (sinônimo botânico) para quadros como vitiligo, em composição com outras plantas, porém sem evidências clínicas robustas ou padronizadas[2].
4. Indicações Terapêuticas Tradicionais
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Purgativo: Raiz e cascas, normalmente em forma de decocção ou extrato bruto.
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Afecções da Pele (eczema, furunculose, eritemas e feridas): Aplicação em banhos, cataplasmas ou uso oral visando “limpeza do sangue”.
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Acne: Associada ao uso tópico ou oral, no intuito de reduzir inflamações cutâneas.
Autor/Tratado Histórico Citado:
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Acervo da Casa Granado[3]
Parte da Planta Utilizada: raiz e cascas, de acordo com a tradição popular.
Forma de Preparo e Administração Tradicional:
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Decocções da raiz/casca, usadas oralmente como purgativas.
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Lavagens ou compressas em regiões cutâneas lesionadas ou com acne.
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Não há padronização de dosagens.
5. Composição Química e Principais Ativos
Pesquisas modernas, ainda pouco numerosas, identificaram na espécie Anchietea pyrifolia e correlatos (A. salutaris):
1. Triterpenos do tipo Friedelano:
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Incluindo substâncias nomeadas como “anchietins A-E” (norfriedelanos).
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Algumas dessas substâncias exibiram atividade citotóxica moderada contra linhagens de células tumorais (HeLa e HL-60)[4,5].
2. Ciclotídeos (pequenos peptídeos ricos em dissulfeto):
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Estudos recentes apontam a presença de ciclotídeos com potencial citotóxico em células cancerígenas HCT 116 e HCT 116 TP53−/− e adenocarcinoma de mama, MCF 7)[6].
3. Flavonoides -O-glicosilados, ácido clorogênico e seus isômeros e outros derivados do ácido cinâmico:
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Possíveis contribuintes para ações antioxidante e anti-inflamatória[7].
6. Farmacologia e Mecanismos de Ação
1. Efeito Cardiovascular (Cardioprotetor/Vasodilatador):
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Um estudo em modelo animal com frações etanólicas purificadas (ESAP, “Ethanol-Soluble Fraction of Anchietea pyrifolia”) demonstrou hipotensão aguda e possível vasodilatação em leito mesentérico, associadas à ativação de canais de potássio sensíveis ao cálcio[7].
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O mesmo extrato não aumentou a diurese, mas alterou a excreção de eletrólitos em tratamento prolongado, sugerindo influência moderada na homeostase renal[7].
2. Atividade Citotóxica e Potencial Anti-inflamatório:
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Presença de triterpenos e ciclotideos com atividade em células tumorais e possível inibição de mediadores inflamatórios (ex. óxido nítrico).
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O mecanismo detalhado ainda carece de elucidação completa, mas sugere potencial antioxidante e imunomodulador[4,6].
3. Uso Tópico em Afecções de Pele:
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Embora o uso tradicional seja amplo, para acne, eczemas e feridas, não há estudos farmacológicos especificamente focados em atividade antimicrobiana e cicatrizante; a indicação presume um efeito anti-inflamatório local[2,3].
7. Evidências Pré-Clínicas
· Estudo em Ratos (Cardiovascular e Toxicidade):
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Exposição aguda não gerou efeitos tóxicos significativos[5-7].
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Doses mais elevadas exibiram redução da pressão arterial[5-7].
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Em uso prolongado, houve impacto na excreção de sódio, potássio e cloreto, porém sem toxicidade sistêmica grave[5-7].
· Ensaios de Citotoxicidade contra Células Tumorais (in vitro):
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Triterpenos e ciclotídeos isolados mostraram atividade moderada em linhagens celulares (HeLa e HL-60), com IC50 na faixa de 5,7 a 45,0 µM[4,5].
· Estudos de Eficácia para Pele (Acne, Eczema):
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Relatos somente anedóticos ou históricos; inexistem ensaios robustos in vitro ou in vivo publicados[1-3].
8. Evidências Clínicas
Não foram encontrados ensaios clínicos randomizados que validem o uso de Anchietea pyrifolia em humanos. Há menções de um produto natural contendo Anchietea salutaris (sinônimo), Boerhaavia hirsuta, Baccharis trimera e Echinodorus grandiflorus testado em pacientes com vitiligo em um estudo aberto, mas sem controle adequado ou padronização rigorosa. Portanto, as evidências de eficácia clínica permanecem limitadas ao nível experimental e observacional[2].
9. Toxicidade e Segurança
· Dados de Toxicidade Aguda:
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Em modelos animais, não foram observados sinais graves de toxicidade na dose testada.
· Falta de Estudos de Longo Prazo:
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Não há dados suficientes sobre efeitos cumulativos, toxicidade reprodutiva ou hepática.
· Precauções:
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Uso tradicional como purgativo indica potencial irritação gastrointestinal em doses elevadas.
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Recomenda-se cautela em grupos sensíveis como gestantes, lactantes e crianças, devido à ausência de estudos clínicos.
10. Informações Complementares
Anchietea pyrifolia pode ser encontrada em diversas regiões brasileiras, sendo, no entanto, relativamente pouco conhecida fora de contextos locais. Alguns herbários e comunidades tradicionais indicam a planta para “limpeza do sangue” e tratamento de problemas de pele, o que motivou pesquisas recentes visando caracterizar sua composição química bioativa, especialmente triterpenos e flavonoides[4-6].
11. Considerações Finais e Perspectivas
A monografia de Anchietea pyrifolia (Mart.) G. Don evidencia uma planta com uso tradicional para condições cutâneas, acne, eczemas e feridas, além de purgativa[3]. Estudos científicos contemporâneos apontam possíveis efeitos benéficos cardiovasculares e potencial atividade citotóxica contra células tumorais, relacionando tais ações à presença de triterpenos, flavonoides e ciclotídeos.
Apesar das aplicações populares, não há pesquisas clínicas robustas que validem sua eficácia e segurança em seres humanos. A relativa ausência de toxicidade aguda em modelos animais é encorajadora, mas o uso continuado ou em altas doses devem ser conduzidos com prudência. No futuro, estudos sistemáticos sobre mecanismos de ação, padronização de extratos e ensaios clínicos poderão elucidar melhor o potencial terapêutico de Anchietea pyrifolia como fitoterápico.
Agradecimentos
Gostaríamos de agradecer ao professor Benjamin Gilbert, pesquisador emérito do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), In memoriam, figura importante na área de química de produtos naturais e mentor do projeto “Validação farmacológica do uso de plantas medicinais descritas nos tratados entre os séculos XVII ao século XX”. A Drª. Adriana Nunes Wolffenbüttel e ao professor Caio Fábio Schlechta Portella do CABSIN e ao Dr. Glauco de Kruse Villa Bôas da Fiocruz, por assumir a liderança e o compromisso de levar esse projeto adiante. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq-311875/2022-0) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG- APQ-00901-21; RED-00099-21, BPD-01056-22).
Referências
- 1 Brandão MG, Zanetti NN, Oliveira P, Grael CF, Santos Ac, Monte-Mór RL. Brazilian medicinal plants described by 19 th century European naturalists and in the Official Pharmacopoeia. J Ethnopharmacol. 2008 Nov 20; 120(2): 141-8. [ https://doi.org/10.1016/j.jep.2008.08.004 ].
» https://doi.org/10.1016/j.jep.2008.08.004 - 2 Siba MC, Junior BF. 'A natural' treatment for vitiligo: results of an acid, rich in vitamin P. partly responsible for the open study on 789 patients. J Eur Acad. Dermatol Venereol. 1997; 8: 149-166. [ https://doi.org/10.1111/j.1468-3083.1997.tb00205.x ].
» https://doi.org/10.1111/j.1468-3083.1997.tb00205.x - 3 Oliveira PJM, Gilbert B. Reconhecimento das Plantas Medicinais de uso tradicional no Brasil: a relevância e o pioneirismo da Casa Granado. Rev Fitos. 2015; 9(4): 293-296. Disponível em: [ https://doi.org/10.5935/2446-4775.20150027 ].
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Fontes de Financiamento:
Não houve.
Datas de Publicação
- Publicação nesta coleção
26 Set 2025 - Data do Fascículo
Set 2025
Histórico
- Recebido
02 Maio 2025 - Aceito
12 Ago 2025

Fonte: Juliana de Paula-Souza, Flora do Brasil