Resumo
A experiência refere-se ao curso de educação popular e plantas medicinais na atenção básica denominado “Semeando o Cuidado”, concebido para fornecer subsídios à implementação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) e da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF). Fundamentada na pedagogia freiriana, a formação utilizou a planta medicinal como tema gerador para promover o diálogo entre conhecimentos científicos e saberes populares/tradicionais. Estruturada originalmente para o formato presencial, a trajetória adaptou-se à modalidade remota durante a pandemia de COVID-19, retornando ao presencial em 2022 e empregando recursos como livro didático, jogo cooperativo, investigação de campo, elaboração de plano de ação e herbários pedagógicos. Os resultados demonstraram a ressignificação das práticas de cuidado nos territórios e o fortalecimento de vínculos comunitários. O processo reafirma a potência da construção compartilhada do conhecimento e da decolonialidade, servindo como subsídio para a transformação do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS) ao valorizar a ancestralidade e a determinação social do processo saúde-doença.
Palavras-chave: Educação Popular em Saúde; Plantas Medicinais; Sistema Único de Saúde; Fitoterapia; Cuidado
Abstract
The experience refers to a course on popular education and medicinal plants in primary care called 'Sowing Care' (Semeando o Cuidado), designed to provide contributions to the implementation of the National Policy on Integrative and Complementary Practices (PNPIC) and the National Policy on Medicinal Plants and Phytotherapeutics (PNPMF). Grounded in Freirean pedagogy, the training used medicinal plants as a generating theme to promote dialogue between scientific knowledge and popular knowledge. Originally structured for an in-person format, the trajectory was adapted to a remote modality during the COVID-19 pandemic, returning to the in-person format in 2022, and employing resources such as a textbook, a cooperative game, and pedagogical herbariums. The results demonstrate the reframing of care practices in the territories and the strengthening of community ties. The process reaffirms the power of shared knowledge construction and decoloniality, serving as a contribution to the transformation of care in the Unified Health System (SUS) by valuing ancestry and the social determination of the health-disease process.
Keywords: Health Popular Education; Medicinal Plants; Unified Health System; Phytotherapy; Comprehensive Health Care
Introdução
O presente relato aborda a experiência de um curso de formação sobre educação popular e plantas medicinais na atenção básica, concebido para favorecer a implementação das Políticas Nacionais de Educação Popular em Saúde[1], de Práticas Integrativas e Complementares[2], de Plantas Medicinais e Fitoterápicos[3] e de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta[4]. Tais políticas preveem em suas diretrizes a importância fundamental da valorização dos saberes populares e tradicionais de cuidado para a promoção de um sistema de saúde equânime e participativo, reforçando pressupostos previsto no Sistema Único de Saúde (SUS).
O planejamento do curso teve início em 2019, a partir do encontro entre trabalhadores — pesquisadores, educadores e gestores — com formações diversas em áreas como psicologia, farmácia, agronomia, história, comunicação, biologia e serviço social. Esses atores compartilhavam o compromisso com a pesquisa, o desenvolvimento tecnológico e a construção de processos formativos voltados para a fitoterapia como uma prática integrativa capaz de ressignificar o cuidado nos territórios a partir da formação de trabalhadores do SUS, em particular de Agentes Comunitários de Saúde como força motriz dessa transformação. A coordenação da iniciativa é realizada pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde do Rio de Janeiro (SES/RJ) e o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz).
Entretanto, a institucionalização desses saberes na rotina das equipes de saúde da Estratégia Saúde da Família (ESF) enfrenta o desafio histórico de romper com a hegemonia do modelo biomédico, que frequentemente silencia práticas ancestrais e populares de saúde. Nesse cenário, emerge a seguinte problemática: de que maneira a utilização da planta medicinal como tema gerador, mediada pela educação popular, pode atuar como uma inovação pedagógica capaz de tensionar o reducionismo biomédico e promover a soberania em saúde nos territórios? Esta questão tornou-se ainda mais premente com a pandemia de COVID-19, que exigiu uma reviravolta nos processos educacionais e a reinvenção de estratégias pedagógicas frente à sobrecarga dos trabalhadores do SUS.
O objetivo geral definido para a experiência foi formar trabalhadores e lideranças comunitárias para o desenvolvimento de ações que envolvam o reconhecimento, a valorização e a integração dos saberes tradicionais de cultivo, coleta, preparo e uso de plantas medicinais, sob uma perspectiva participativa e agroecológica. A trajetória formativa investiga e experimenta os modos de cuidado da população atendida pela ESF, possibilitando a sistematização de saberes locais e o desenvolvimento de ações pautadas no conceito ampliado de saúde e no cuidado integral.
Organizado originalmente sob as premissas da pedagogia freiriana para o formato presencial (176 horas), o curso de formação precisou ser readequado para a modalidade remota em 2020 (54 horas) devido às restrições sanitárias impostas pela Covid-19. Apenas em 2022 foi possível retomar o desenho pedagógico presencial originalmente planejado, marco a partir do qual a oferta do curso consolidou-se em uma periodicidade anual. No período compreendido entre 2020 e 2022, a modalidade remota do curso viabilizou a formação de quatro turmas, fruto de pactuações estabelecidas junto às Comissões Permanentes de Integração Ensino-Serviço (CIES) da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES/RJ). A distribuição geográfica das atividades concentrou-se prioritariamente nas regiões Serrana e Médio Paraíba. Na Região Serrana, houve uma participação robusta de municípios como Petrópolis, Nova Friburgo, Teresópolis e Cachoeiras de Macacu. A capilaridade da iniciativa permitiu ainda a inclusão de uma ampla diversidade de localidades, abrangendo Resende, Barra Mansa, Volta Redonda, Duque de Caxias, Angra dos Reis e Niterói. O alcance do projeto registrou também participações pontuais de profissionais do Distrito Federal, vinculados ao Centro de Referência em Práticas Integrativas em Saúde (Cerpis). Dessa forma, a modalidade remota permitiu um alcance geográfico significativo, conectando profissionais de saúde de diversas regiões, muitas vezes em áreas rurais, que se encontravam na linha da frente do combate à pandemia, transformando o curso numa rede de apoio e partilha de vivências essenciais naquele período.
Apesar dos êxitos alcançados, a trajetória remota enfrentou limitações consideráveis, tais como a impossibilidade de realizar oficinas práticas presenciais para a preparação de remédios caseiros, aspecto central para a dimensão do fazer coletivo. Verificaram-se também dificuldades técnicas relacionadas com a conectividade e uma intensificação da carga laboral no sistema de saúde, onde a rotina de gestão muitas vezes comprimia o tempo necessário para uma participação mais reflexiva. No entanto, a experiência confirmou que a planta medicinal atua como um potente tema gerador, capaz de estimular o diálogo e fornecer subsídios relevantes para a implementação de práticas integrativas na Atenção Básica, fortalecendo a autonomia e o vínculo dos trabalhadores com as suas comunidades.
Já a primeira turma presencial (2022) formou 18 participantes da Área Programática 3.1 da Secretaria Municipal de Saúde do Município do Rio de Janeiro. Nos anos subsequentes, a oferta do curso na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) consolidou-se em uma periodicidade anual, totalizando quatro turmas presenciais realizadas até o ano de 2025. No segundo semestre do ano de 2024 foi realizada também uma turma em Belém – Pará, com carga horária de 54 horas. Reduziu-se a carga horária em decorrência dos custos de deslocamentos e da experiência na formação remota, adaptando-se a carga horário em um curso híbrido com 40 horas presencias e 14 remotas.
O curso ocorreu em três momentos distintos, integrando o estudo teórico autônomo, a mediação tecnológica e a imersão presencial, a fim de possibilitar que o aprendizado fosse mais próximo da realidade local. A jornada inicia-se com uma etapa virtual e preparatória, focada na ambientação e na discussão dos fundamentos da educação popular. Este momento é crucial para estabelecer a base ética e política do curso, utilizando os eixos iniciais do livro didático[5] para provocar as primeiras reflexões sobre o papel do educador e a importância dos saberes territoriais. A transição do ambiente digital para o presencial serviu como preparatório para a imersão realizada em seguida, estimulando os educandos para os debates mais profundos sobre a integração de saberes (FIGURA 1).
Portanto, o coração da formação residiu nos dois períodos presenciais, que concentrou maior parte da carga horária (40 horas). Esta etapa é marcada por uma densa articulação entre a fundamentação pedagógica e a dimensão prática. Os conteúdos percorrem desde a valorização da cultura e da ciência até os modos de uso e preparo, culminando em oficinas técnicas para a produção de remédios caseiros. A metodologia prioriza o "fazer junto", onde a preparação de chás, xaropes, pomadas, banhos e emplastros não é vista apenas como uma técnica, mas como um espaço de diálogo e troca de experiências entre os participantes e a equipe de coordenação.
A segunda etapa presencial marcou a sistematização e o encerramento da formação, com foco na elaboração de produtos pedagógicos, como os herbários e os planos de ação territoriais (a exemplo do Projeto Revoada, em Belém - <https://instagram.com/projetorevoadabelem?igsh=MWI0NzQ0eXhtaTdnaQ==>).
Comum a todos os cursos, essa abordagem metodológica buscou estimular o planejamento e a análise crítica sobre os desafios de se implementar projetos de plantas medicinais no SUS, preparando os educandos para darem continuidade às ações após o término do curso.
A inclusão de visitas a territórios locais e momentos de avaliação coletiva reforça o caráter participativo da formação, garantindo que o conhecimento produzido seja compartilhado e transformador. Deste modo, ao dividir a formação em eixos temáticos que vão da agroecologia à manipulação caseira de remédios, o curso assegura que os profissionais de saúde saiam capacitados não apenas para orientar o uso de plantas, mas para atuar como agentes de mudança no SUS local.
É sobre esta experiência de inovação e resistência que o presente artigo reflete. A análise foi realizada a partir de documentos e registros produzidos ao longo do processo por educadores e educandos. Conforme propõe Jara[6], a sistematização da experiência busca conferir sentido a esses "lugares vivos" de criação subjetiva e produção de saberes, analisando-os a partir de suas particularidades e contextos sócio-históricos. Estruturou-se este relato explorando os fundamentos político-pedagógicos e recursos utilizados, discutindo como a planta medicinal figura como tema gerador para ampliar o cuidado nos territórios e fortalecer a decolonialidade na saúde pública.
Fundamentos e princípios do curso
O curso Semeando o Cuidado fundamenta-se na pedagogia freiriana que considera a educação como prática de liberdade, pedagogia do oprimido e da esperança, ou como ato político comprometido com a transformação social e a superação das formas de opressão próprias da educação bancária que atende os interesses das classes dominantes[7]. Nesse sentido, o próprio título do curso evoca a metáfora do cultivo e da germinação de novos saberes a partir da terra fértil da experiência popular, buscando romper com a colonialidade do saber e questionar a hegemonia de modelos que silenciam as identidades locais em prol de uma ciência pretensamente universal e neutra.
Paulo Freire[8] pressupõe a educação como dialogicidade, comunicação e, por isso, só é possível o saber se constituir pelo exercício livre das consciências. Contudo, ele adverte que a liberdade “só adquire plena significação quando comunga com a luta concreta dos homens por libertar-se”[9], de tal modo que a esperança deve somar-se ao processo de libertação como necessidade ontológica para ativar a luta política pela transformação do mundo[10].
A transformação do mundo passa então, dentre outras coisas, pela educação, quando esta possibilita a passagem de uma visão ingênua a uma visão crítica. Nesta experiência, a planta medicinal é assumida como o "tema gerador", termo freiriano que designa o ponto de partida para a investigação da realidade e a problematização das relações entre seres humanos, natureza e sociedade. Considerar os saberes das experiências de vida e trabalho produz uma cultura elaborada que deve ser compreendida para ser problematizada e mediada com os conhecimentos científicos — como o uso de plantas que é uma cultura resultante de um amplo processo de aquisição sistemática por meio da experiência humana.
Diz Freire:
O respeito, então, ao saber popular implica, necessariamente, o respeito ao contexto cultural. A localidade dos educandos é o ponto de partida para o conhecimento que eles vão criando do mundo. Seu mundo, em última análise, é a primeira e inevitável face do mundo[10].
Nesse horizonte, reconhecer a primeira face do mundo implica em questionar as impressões parciais e aprofundar a leitura da realidade em sua totalidade, compreendendo como a vida se organiza a partir do modo de produção capitalista e nos territórios, onde se expressam saberes e práticas de resistência que se contrapõem à lógica hegemônica mercadológica e colonial. A fitoterapia, no âmbito do "Semeando o Cuidado", deixa de ser apenas mais uma opção terapêutica para figurar como um instrumento de soberania e de reconhecimento da biodiversidade como um bem comum.
Inspirados nesses fundamentos, o curso parte das experiências de vida e trabalho dos educandos para reconhecer as diferentes referências culturais existentes nos territórios como elementos estruturantes dos saberes e práticas populares e tradicionais de cuidado. O desenho metodológico, estruturado na relação ação-reflexão-ação, intercala encontros dialógicos com momentos de inserção territorial, garantindo que a investigação dos modos de cuidado da população não seja uma coleta passiva de dados, mas um exercício de autoconhecimento e empoderamento comunitário.
O curso levou em conta os princípios da educação popular definidos na Política Nacional de Educação Popular em Saúde (PNEPS-SUS)[1]: 1) problematização: leitura e análise crítica da realidade; 2) diálogo: encontro entre sujeitos mediatizados pelo mundo; 3) amorosidade: ampliação do diálogo nas relações de cuidado e na ação educativa; 4) construção compartilhada do conhecimento: processos comunicacionais e pedagógicos dialógicos; 5) compromisso com a construção de um projeto democrático e popular; 6) emancipação: processo coletivo de libertação de todas as formas de “opressão, exploração, discriminação e violência ainda vigentes na sociedade e que produzem a desumanização e a determinação social do adoecimento”. Princípios resumidos no ESQUEMA 1 abaixo:
Em suma, a articulação entre a pedagogia freiriana e os princípios da educação popular transforma o "Semeando o Cuidado" em um espaço de resistência epistemológica. Ao deslocar a centralidade da prescrição técnica de fitoterápicos industrializados ou manipulados para o encontro dialógico e a valorização da sociobiodiversidade, a experiência reafirma que o caminho para a saúde integral deve ser construído na contramão das forças que degradam a vida. Assim, a semeadura proposta por este curso garante que a fitoterapia no SUS seja exercida não apenas como ciência, mas como um ato de cidadania, decolonialidade e transformação social nos territórios.
As estratégias pedagógicas e a passagem do remoto ao presencial
Como ponto de partida e no intuito de consolidar uma trajetória alicerçada nos princípios da educação popular, além do desenho curricular, foram elaborados dois recursos educativos principais: um livro e um jogo[11]. Estes recursos não operam apenas como suportes didáticos, mas como ferramentas de mediação que buscam traduzir a complexidade das políticas públicas para a linguagem do território e para o cotidiano dos trabalhadores da saúde.
O livro organiza a trajetória formativa, apresentando debates fundamentais para a valorização das plantas medicinais e da fitoterapia no cuidado. A trajetória é dividida em duas partes e oito eixos temáticos, percorrendo desde as experiências de vida e trabalho (Eixo 1) até a sistematização da experiência formativa (Eixo 8). O encadeamento destes eixos visa garantir que a teoria científica não se sobreponha ao saber popular, mas que ambos dialoguem em uma perspectiva de ecologia de saberes, fundamental para a decolonialidade do conhecimento.
Já o jogo “Semeando o Cuidado[11]” é um recurso complementar que visa disparar diálogos sobre os territórios, as indicações de plantas para demandas de saúde e o enfrentamento de preconceitos. O tabuleiro simula um território onde os jogadores, no papel de Agentes Comunitários de Saúde (ACS), utilizam habilidades de “mestres” para coletar saberes e plantas de forma cooperativa, reforçando essa postura ativa como alternativa à competição. Ao “gamificar” a prática do cuidado, o jogo retira o peso da prescrição técnica e insere o lúdico como forma de construção compartilhada do conhecimento.
Na fase remota (2020-2022), o Herbário Pedagógico Virtual destacou-se como a principal metodologia de construção partilhada do conhecimento, sendo inspirado na investigação-ação participativa. O herbário, aqui, ganhou um novo significado: não se trata de que uma técnica botânica de herborização e depósito de amostras botânicas, mas uma ferramenta pedagógica de coletivização do conhecimento. Através dele, os educandos puderam sistematizar suas investigações sobre as plantas, reunindo nomes botânicos e populares, memórias afetivas e saberes tradicionais e científicos sobre o cultivo e o uso das plantas. Através desta abordagem, cada educando pôde investigar o uso de plantas medicinais no seu próprio território, documentando saberes populares e imagens que foram, posteriormente, articulados com o conhecimento científico. Esta prática permitiu que os educandos se reconhecessem como produtores de saber, mitigando a distância física através de uma sistematização coletiva e afetiva mediada pelas telas. A experiência demonstrou que, mesmo sob as limitações da tela, o diálogo freiriano foi capaz de forjar redes de apoio essenciais para trabalhadores que atuavam na linha de frente do combate à Covid-19.
Com a retomada definitiva das atividades presenciais em 2022, a experiência consolidou o curso como um espaço de criação coletiva, transitando de um modelo teórico para uma imersão sensorial e territorial profunda. As atividades presenciais abarcaram atividades dialógicas — como o jogo "Semeando o Cuidado" — além de visitas de campo (Campus Mata Atlântica/Fiocruz, Jardim Botânico do Rio de Janeiro e Projeto Terrapia/Fiocruz), onde a identificação botânica e a agroecologia foram vivenciadas na prática. Essa metodologia foi capaz de unir a pesquisa acadêmica ao saber popular/tradicional e trazer reflexões para ressignificar o cuidado no SUS por meio da fitoterapia.
As oficinas práticas foram o pilar central dessa jornada, levando os educandos da teoria à manipulação direta das plantas para a produção de tinturas, pomadas, escalda-pés e xaropes. Nesses momentos, são estimuladas as trocas de receitas e compartilhamento de experiências sobre modos de preparo já praticados pelos educandos, buscando valorizar saberes tradicionais. Assim, cada turma oportuniza tanto o reconhecimento quanto o despertar de várias erveiras e mestras das plantas. Esse "fazer junto" culminou na construção de herbários físicos e na elaboração de Planos de Ação voltados para a transformação dos territórios dos educandos, especialmente das unidades de saúde de onde uma parte deles atuam. A mostra de encerramento do curso funcionou como uma ação educativa pública, na qual os educandos compartilharam produtos e saberes com a comunidade, reafirmando a fitoterapia como uma ferramenta de soberania, decolonialidade e humanização do cuidado integral.
Essas estratégias pedagógicas foram distribuídas para fomentar debates tanto nos encontros quanto nas atividades de inserção (momentos que buscavam estimular práticas investigativas no território de atuação ou moradia dos educandos). Contudo, a experiência foi diferenciada em função das modalidades, remota e presencial, impostas pelas condições reais de realização, exigindo da coordenação e dos educandos uma constante reinvenção das estratégias de ensino-aprendizagem frente às adversidades do cenário sanitário e gerencial.
A Mediação Tecnológica no Contexto Pandêmico
A formação remota, abrangendo as quatro primeiras turmas (2020-2022), foi mediada por tecnologias como Zoom, Padlet e WhatsApp, cuja trajetória pedagógica foi organizada em 12 encontros síncronos (via Zoom) e 10 atividades assíncronas, utilizando o Padlet (FIGURA 2) como um "território virtual" de sistematização e partilha de saberes.
: Imagem do Padlet com a sistematização dos encontros síncronos e assíncronos realizados coma as turmas remotas.
Na abertura de cada encontro, realizava-se um acolhimento com vídeos e músicas que evocam o cuidado e a natureza, como Ewe inje (Metá Metá), Banho de folhas (Luedji Luna) e Canção da Terra (Teatro Mágico). Essas obras artísticas funcionaram como "âncoras sensíveis", permitindo que, mesmo em ambientes virtuais, o afeto e a mística da educação popular estivessem presentes, combatendo o isolamento social por meio da arte.
A metodologia baseou-se em três eixos estruturantes:
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Recursos Pedagógicos Abertos: O uso do livro didático e do jogo educativo "Semeando o Cuidado" como disparadores de reflexão, permitindo que o lúdico mediasse a complexidade das políticas públicas e das práticas de fitoterapia;
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Construção Compartilhada: As atividades assíncronas focaram na criação de um Herbário da Turma (FIGURA 3) e na elaboração de planos de ação. Essas ferramentas permitiram que, mesmo à distância, os educandos investigassem seus próprios territórios e propusessem intervenções concretas na Atenção Básica;
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Intersetorialidade e Decolonialidade: O curso integrou referências da ecologia e etnografia — como os debates sobre a "Saúde Guarani Mbyá" e as conferências de Antônio Nobre no ciclo Selvagem — para expandir o conceito de saúde. Essa abordagem reforçou a percepção de que o cuidado com as plantas medicinais é indissociável da preservação ambiental e do respeito à ancestralidade familiar e comunitária.
Na primeira parte do curso, as concepções de cuidado foram problematizadas à luz de autores como Brandão[12] e Freire[7,10]. A imersão virtual não impediu que a planta medicinal figurasse como tema gerador, conectando o saber acadêmico à prática empírica dos educandos. Como consequência, as atividades assíncronas resultaram na construção de um herbário virtual, estruturado no Padlet. Essa estratégia foi inspirada na investigação-ação-participativa, transformando a tela do computador em um espaço de sistematização coletiva onde o educando se reconhece como sujeito de saber, superando a dicotomia entre saber científico e popular.
O Retorno ao Presencial e os Desafios do Território Urbano
Apenas em 2022 foi possível retomar o desenho pedagógico presencial originalmente planejado, marco a partir do qual a oferta do curso consolidou-se em uma periodicidade anual. A turma local, na cidade do Rio de Janeiro, permitiu vivências que o remoto limitava, como a herborização física e o preparo conjunto de remédios caseiros (tinturas, pomadas e xaropes). Cabe destacar que a modalidade presencial do curso — ao ampliar a carga horária e intensificar os vínculos de confiança — propiciou a emergência de questões sensíveis sobre o cotidiano de trabalho, que dificilmente apareceriam no formato remoto. Um exemplo marcante foi o relato das Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) sobre a desvalorização da pergunta referente ao uso de plantas medicinais na ficha de cadastramento das famílias. Além disso, embora a falta de experiência prévia dos educandos com o cultivo já fosse notada nas turmas remotas, o encontro presencial permitiu lidar com essa realidade de forma mais resolutiva. O contato direto com a terra fomentou não apenas o aprendizado prático, mas também o debate crítico sobre determinantes estruturais, como a dificuldade de acesso à terra em contextos urbanos. Como resposta a esses desafios, soluções criativas e territorializadas, como o plantio em latas e lajes, ganharam força, reafirmando-se como uma estratégia pedagógica que transita entre a limitação do espaço e a garantia do direito ao cultivo.
A análise desta etapa revela um cenário de vulnerabilização territorial urbana, onde a precariedade das condições de moradia em favelas — caracterizadas por alta densidade populacional e ausência de solo — dificulta a prática do cultivo. Como aponta Milton Santos[13], o território usado é marcado por rugosidades e desigualdades que determinam as possibilidades de ação. Em favelas, o cultivo em lajes e latas não é apenas uma técnica, mas uma forma de "resistência espacial" frente à escassez de solo.
Neste cenário, a rotina gerencialista do trabalho na Atenção Básica atua como um complicador adicional. Conforme discutido por Emerson Merhy[14], a lógica do produtivismo e do cumprimento de metas quantitativas muitas vezes asfixia o tempo necessário para o acolhimento e a educação em saúde. Durante o curso, a sobrecarga de trabalho — especialmente em territórios de favela sob forte pressão social — rebateu na assiduidade dos educandos. Mais do que uma valorização dos saberes populares/tradicionais, o contato com as plantas propiciou aos educandos uma reflexão crítica sobre seus próprios modos de vida. As turmas foram, progressivamente, construindo a percepção de que o modelo gerencialista e produtivista impõe uma urgência que sufoca o tempo orgânico do cultivo, do cuidado e da troca. Ao usar o ciclo das plantas como lente analítica, a educação popular firmou-se como um espaço vital de 'desaceleração', permitindo que os trabalhadores repensassem suas práticas e resgatassem a dimensão humana do trabalho no SUS.
Ao concluir a experiência, a transformação nos sujeitos participantes foi evidente. A integração entre a "ciência da planta" e a "arte do cuidado" permitiu que os educandos — inclusive aqueles que inicialmente não possuíam proximidade com o manejo de plantas — finalizassem o curso valorizando o saber popular e aplicando o conhecimento técnico na produção de exsicatas (composição de herbário pedagógico) e remédios. Tanto no formato remoto quanto no presencial, as plantas medicinais provaram ser um tema gerador capaz de promover a curiosidade e o diálogo, ressignificando o cuidado mesmo sob as tensões do gerencialismo contemporâneo. Dentre os resultados práticos, destacam-se a implementação de hortas em Unidades Básicas de Saúde da Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro e a execução dos planos de ação, que envolveram rodas de conversa, cultivo em lajes, latas, canteiros e jardins, vivências com o jogo e oficinas de preparo de remédios, além de diversas atividades educativas nos territórios (FIGURA 4). Essas iniciativas materializam o compromisso com a ressignificação do cuidado e a resistência coletiva durante uma crise sanitária sem precedentes na história do SUS.
Educação popular e plantas medicinais: caminhos para ressignificação do cuidado
O início do curso, em todas as turmas, foi marcado pela expectativa de um modelo expositivo, concentrado na apresentação vertical do conhecimento científico sobre as plantas a partir de suas finalidades medicinais. Esta postura, reflexo da educação bancária que historicamente moldou as trajetórias escolares dos educandos, revelou-se o primeiro obstáculo a ser superado. A convocação para a investigação, participação e construção compartilhada do conhecimento gerou um deslocamento epistemológico necessário, permitindo compreender a fitoterapia não apenas como a produção de remédios, mas como uma ferramenta de resgate da ancestralidade, valorização das identidades populares, fortalecimento de práticas agroecológicas e fomento à participação comunitária.
O debate sobre o valor dos saberes tradicionais permitiu o resgate das memórias afetivas dos próprios educandos. Narrativas sobre benzimentos, rezas, banhos, chás, tinturas e garrafadas emergiram como formas legítimas de resistência cultural. Ficou evidente que esses saberes, embora muitas vezes confirmados pelas ciências farmacêuticas, guardam dimensões de espiritualidade e ritos de cura que a racionalidade biomédica hegemônica — em sua lógica puramente funcionalista — é incapaz de apreender. Relatos como o xarope da Dona Nair, da Dona Ruth ou as tradições baianas de cultivo doméstico ilustram como o cuidado se manifesta na solidariedade territorial e na herança ancestral, operando em canais que precedem e extrapolam a formalidade e os protocolos sanitários dos serviços de saúde.
Neste sentido, a educação popular atua como uma força de desocultamento, recuperando vozes silenciadas pela hegemonia da medicina científica moderna e da indústria farmacêutica. Ao abordar a fitoterapia como prática integrativa, provoca-se uma problematização profunda do modelo biomédico e de sua lógica reducionista, que fragmenta o corpo individual em uma máquina a ser reparada via protocolos clínicos. A abordagem de diferentes racionalidades médicas favoreceu a percepção da biomedicina como uma prática ancorada em uma visão mecânica do corpo[15], permeada por valores coloniais que subjugam saberes plurais em favor da pretensa universalidade da epistemologia europeia[16].
Assim, foi possível refletir sobre outras formas de compreender o sofrimento, bem como as possibilidades de associar as plantas medicinais no contexto do cuidado da Atenção Básica de modo a tensionar o modelo hegemônico, tendo as equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) como foco de análise e mudança das práticas de cuidado. Neste contexto, o diálogo reforçou a importância da Atenção Básica como espaço prioritário de resistência e valorização da fitoterapia tanto como prática cultural quanto terapêutica. Este movimento corrobora estudos que apontam a fitoterapia como elemento de fortalecimento do vínculo entre trabalhadores e comunidade[17].
A partir da agroecologia, as plantas permitiram uma reflexão abrangente na qual houve o reconhecimento de elementos vitais — terra, água, alimento — como constituintes da saúde. O debate avançou para a soberania alimentar, enfatizada pela autonomia de produção retratada no documentário Taco de Terra (https://youtu.be/wbAenlS95-0?si=9AySOAOe2ZU60SLA). Ficou nítido que o cuidado integral é inseparável da luta pela terra e da difusão de tecnologias de produção em sistemas biodinâmicos, esticando o horizonte do processo saúde-doença-cuidado para além dos muros da unidade de saúde.
Por sua vez, a construção do herbário pedagógico e as oficinas de preparo de remédios caseiros foram essenciais para o fortalecimento do pertencimento comunitário. Práticas como o "fazer junto" — partilhar alimentos, produzir pomadas e trocar mudas — constituem o que se denomina de "comum". Em síntese, o curso promoveu uma práxis transformadora, reafirmando a potencialidade da construção compartilhada do conhecimento e da reflexão amorosa. Esta experiência conduz à compreensão de que fazer parte de uma totalidade complexa, implica a necessidade de pensar a saúde pública como um compromisso ético-político com a construção do bem viver.
Considerações Finais
A experiência permite refletir sobre como o cuidado pela via das plantas e da educação popular é uma forma de ampliar o compromisso com a construção de um mundo com menos opressão, principalmente ao confrontar os processos de invasão cultural, colonialidade e expropriação que historicamente silenciam as culturas tradicionais[7,18,19].
Ao recuperar a ancestralidade, o curso colabora com a decolonialidade do ser, do saber e do poder. Nesta perspectiva, a colonialidade é compreendida, conforme Quijano[19], como um padrão de poder que naturaliza a ideia de que os dominados são inferiores. Esse processo produz uma hierarquia epistêmica que privilegia o conhecimento ocidental em detrimento de cosmologias não ocidentais[20].
Na contramão do reducionismo biomédico, o debate sustentado pelo curso leva em consideração a determinação social do processo saúde-doença. Esta percepção permite formular outros modos de cuidado comprometidas com o conceito ampliado de saúde, que abarca a intervenção nas condições materiais da vida — incluindo o investimento em saneamento, soberania alimentar, práticas de cultivo agroecológicas e relações comunitárias solidárias. A integração das plantas no cuidado é, nesse horizonte, uma forma de promover a reflexão sobre a indissociabilidade entre o local e o global, entre as partes e a totalidade que constitui a vida.
A tradição de uso de plantas medicinais, além de ser importante fonte para a construção do conhecimento científico, configura-se como uma estratégia vital de preservação do patrimônio cultural e natural do Brasil. A valorização dos saberes tradicionais para o cuidado requer o fortalecimento da participação popular e a produção de novas relações nos territórios de vida e trabalho. A experiência demonstrou que a construção do conhecimento mediada pela experiência dos sujeitos possibilita trocas, vínculos e inclusão dos profissionais e da população adscrita a Atenção Básica. Revelou-se um nítido interesse dos trabalhadores em conhecer as potencialidades da educação popular no resgate de saberes ancestrais. Os educandos, ao evocarem memórias afetivas de cura, desenvolveram ações de cuidado de acordo com as possibilidades concretas de seus territórios.
Pode-se afirmar que o curso resultou em uma compreensão ampliada sobre a interdependência entre o uso tradicional de plantas e a conservação da biodiversidade, colaborando diretamente com a implementação das políticas nacionais de Práticas Integrativas e Complementares, de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e de Educação Popular em Saúde.
Para finalizar, o caminho para a saúde tem de ser construído na contramão das forças que desestabilizam e degradam a vida. Essa é a aposta de um curso fundamentado na construção de relações dialógicas e no reconhecimento das memórias e saberes da população. A semeadura proposta pelo curso "Semeando o Cuidado" reafirma que o cuidado integral é um ato indissociável da transformação social e da construção de um bem viver comunitário e saudável.
Agradecimentos
Nossos agradecimentos ao Laboratório de Educação Profissional em Atenção à Saúde (LABORAT - EPSJV/Fiocruz) e ao Departamento de Produtos Naturais de Farmanguinhos/Fiocruz pela profícua parceria institucional. A união entre o suporte pedagógico em educação popular e a expertise técnica em pesquisa de plantas medicinais foi indispensável para o desenvolvimento e aprofundamento deste estudo.
Referências
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Fonte de Financiamento:
Este artigo é parte do projeto 'Educação Popular: semeando o cuidado e fortalecendo o direito à Saúde', financiado pelo Ministério da Saúde, com recursos oriundos da Emenda Parlamentar nº 08, destinada pelo Deputado Federal Glauber Braga (RJ).
Datas de Publicação
- Publicação nesta coleção
05 Out 2026 - Data do Fascículo
2026
Histórico
- Recebido
20 Maio 2026 - Aceito
11 Ago 2026

Fonte: acervo de imagens dos autores.
Fonte: elaborado pelos autores.
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).
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